Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Evangelho – Jo 18,1-19,42

Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo João 18,1-19,42 Prenderam Jesus e o amarraram. Naquele tempo:

1 Jesus saiu com os discípulos

para o outro lado da torrente do Cedron.

Havia aí um jardim, onde ele entrou com os discípulos.

2 Também Judas, o traidor, conhecia o lugar,

porque Jesus costumava reunir-se aí

com os seus discípulos.

3 Judas levou consigo um destacamento de soldados

e alguns guardas dos sumos sacerdotes e fariseus,

e chegou ali com lanternas, tochas e armas.

4 Então Jesus, consciente de tudo o que ia acontecer,

saiu ao encontro deles e disse: ‘A quem procurais?’

5 Responderam: ‘A Jesus, o nazareno’.

Ele disse: ‘Sou eu’.

Judas, o traidor, estava junto com eles.

6 Quando Jesus disse: ‘Sou eu’,

eles recuaram e caíram por terra.

7 De novo lhes perguntou:

‘A quem procurais?’

Eles responderam: ‘A Jesus, o nazareno’.

8 Jesus respondeu: ‘Já vos disse que sou eu.

Se é a mim que procurais,

então deixai que estes se retirem’.

9 Assim se realizava a palavra que Jesus tinha dito:

‘Não perdi nenhum daqueles que me confiaste’.

10 Simão Pedro, que trazia uma espada consigo,

puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote,

cortando-lhe a orelha direita.

O nome do servo era Malco.

11 Então Jesus disse a Pedro:

‘Guarda a tua espada na bainha.

Não vou beber o cálice que o Pai me deu?’

Conduziram Jesus primeiro a Anás.

12 Então, os soldados, o comandante e os guardas dos

judeus prenderam Jesus e o amarraram.

13 Conduziram-no primeiro a Anás, que era o sogro de

Caifás, o sumo sacerdote naquele ano.

14 Foi Caifás que deu aos judeus o conselho:

‘É preferível que um só morra pelo povo’.

15 Simão Pedro e um outro discípulo seguiam Jesus.

Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote

e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote.

16 Pedro ficou fora, perto da porta.

Então o outro discípulo,

que era conhecido do sumo sacerdote, saiu,

conversou com a encarregada da porta

e levou Pedro para dentro.

17 A criada que guardava a porta disse a Pedro:

‘Não pertences também tu aos discípulos desse homem?’

Ele respondeu: ‘Não’.

18 Os empregados e os guardas fizeram uma fogueira

e estavam-se aquecendo, pois fazia frio.

Pedro ficou com eles, aquecendo-se.

19 Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus

a respeito de seus discípulos e de seu ensinamento.

20 Jesus lhe respondeu:

‘Eu falei às claras ao mundo. Ensinei sempre na 

sinagoga e no Templo, onde todos os judeus se reúnem.

Nada falei às escondidas.

21 Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que 

falei; eles sabem o que eu disse.’

22 Quando Jesus falou isso, um dos guardas que ali estava

deu-lhe uma bofetada, dizendo: 

‘É assim que respondes ao sumo sacerdote?’

23 Respondeu-lhe Jesus: ‘Se respondi mal, mostra em quê;

mas, se falei bem, por que me bates?’

24 Então, Anás enviou Jesus amarrado para Caifás,

o sumo sacerdote.

Não és tu também um dos discípulos dele? Pedro negou: ‘Não!

25 Simão Pedro continuava lá, em pé, aquecendo-se.

Disseram-lhe:

‘Não és tu, também, um dos discípulos dele?’

Pedro negou: ‘Não!’

26 Então um dos empregados do sumo sacerdote,

parente daquele a quem Pedro tinha cortado a orelha,

disse: ‘Será que não te vi no jardim com ele?’

27 Novamente Pedro negou. E na mesma hora, o galo cantou.

O meu reino não é deste mundo.

28 De Caifás, levaram Jesus ao palácio do governador.

Era de manhã cedo.

Eles mesmos não entraram no palácio,

para não ficarem impuros e poderem comer a páscoa.

29 Então Pilatos saiu ao encontro deles e disse:

‘Que acusação apresentais contra este homem?’

30 Eles responderam: ‘Se não fosse malfeitor,

não o teríamos entregue a ti!’

31 Pilatos disse: ‘Tomai-o vós mesmos

e julgai-o de acordo com a vossa lei.’

Os judeus lhe responderam:

‘Nós não podemos condenar ninguém à morte’.

32 Assim se realizava o que Jesus tinha dito,

significando de que morte havia de morrer.

33 Então Pilatos entrou de novo no palácio,

chamou Jesus e perguntou-lhe:

‘Tu és o rei dos judeus?’

34 Jesus respondeu:’Estás dizendo isto por ti mesmo,

ou outros te disseram isto de mim?’

35 Pilatos falou: ‘Por acaso, sou judeu?

O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim.

Que fizeste?’.

36 Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo.

Se o meu reino fosse deste mundo,

os meus guardas lutariam para que eu não

fosse entregue aos judeus.

Mas o meu reino não é daqui.’

37 Pilatos disse a Jesus: ‘Então tu és rei?’

Jesus respondeu: ‘Tu o dizes: eu sou rei.

Eu nasci e vim ao mundo para isto:

para dar testemunho da verdade.

Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.’

38 Pilatos disse a Jesus: ‘O que é a verdade?’

Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus,

e disse-lhes: ‘Eu não encontro nenhuma culpa nele.

39 Mas existe entre vós um costume,

que pela Páscoa eu vos solte um preso.

Quereis que vos solte o rei dos Judeus?’

40 Então, começaram a gritar de novo:

‘Este não, mas Barrabás!’ Barrabás era um bandido.

Viva o rei dos judeus!

19,1 Então Pilatos mandou flagelar Jesus.

2 Os soldados teceram uma coroa de espinhos

e colocaram-na na cabeça de Jesus.

Vestiram-no com um manto vermelho,

3 aproximavam-se dele e diziam:’Viva o rei dos judeus!’

E davam-lhe bofetadas.

4 Pilatos saíu de novo e disse aos judeus:

‘Olhai, eu o trago aqui fora, diante de vós,

para que saibais que não encontro nele crime algum.’

5 Então Jesus veio para fora,

trazendo a coroa de espinhos e o manto vermelho.

Pilatos disse-lhes: ‘Eis o homem!’

6 Quando viram Jesus,

os sumos sacerdotes e os guardas começaram a gritar:

‘Crucifica-o! Crucifica-o!’

Pilatos respondeu: ‘Levai-o vós mesmos para o

crucificar, pois eu não encontro nele crime algum.’

7 Os judeus responderam: ‘Nós temos uma Lei,

e, segundo esta Lei, ele deve morrer,

porque se fez Filho de Deus’.

8 Ao ouvir estas palavras, Pilatos ficou com mais medo ainda.

9 Entrou outra vez no palácio

e perguntou a Jesus: ‘De onde és tu?’

Jesus ficou calado.

10 Então Pilatos disse: ‘Não me respondes?

Não sabes que tenho autoridade para te soltar

e autoridade para te crucificar?’

11 Jesus respondeu:

‘Tu não terias autoridade alguma sobre mim,

se ela não te fosse dada do alto.

Quem me entregou a ti, portanto, tem culpa maior.’

Fora! Fora! Crucifica-o!

12 Por causa disso, Pilatos procurava soltar Jesus.

Mas os judeus gritavam:

‘Se soltas este homem, não és amigo de César.

Todo aquele que se faz rei, declara-se contra César’.

13 Ouvindo estas palavras, Pilatos trouxe

Jesus para fora e sentou-se no tribunal,

no lugar chamado ‘Pavimento’, em hebraico ‘Gábata’.

14 Era o dia da preparação da Páscoa,

por volta do meio-dia.

Pilatos disse aos judeus: ‘Eis o vosso rei!’

15 Eles, porém, gritavam: ‘Fora! Fora! Crucifica-o!’

Pilatos disse: ‘Hei de crucificar o vosso rei?’

Os sumos sacerdotes responderam:

‘Não temos outro rei senão César’.

16 Então Pilatos entregou Jesus para ser crucificado,

e eles o levaram.

Ali o crucificaram, com outros dois.

17 Jesus tomou a cruz sobre si

e saiu para o lugar chamado ‘Calvário’,

em hebraico ‘Gólgota’.

18 Ali o crucificaram, com outros dois:

um de cada lado, e Jesus no meio.

19 Pilatos mandou ainda escrever um letreiro

e colocá-lo na cruz; nele estava escrito:

‘Jesus o Nazareno, o Rei dos Judeus’.

20 Muitos judeus puderam ver o letreiro, porque o lugar em

que Jesus foi crucificado ficava perto da cidade.

O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego.

21 Então os sumos sacerdotes dos judeus disseram a

Pilatos: ‘Não escrevas ‘O Rei dos Judeus’,

mas sim o que ele disse: ‘Eu sou o Rei dos judeus’.’

22 Pilatos respondeu: ‘O que escrevi, está escrito’.

Repartiram entre si as minhas vestes.

23 Depois que crucificaram Jesus,

os soldados repartiram a sua roupa em quatro partes,

uma parte para cada soldado.

Quanto à túnica, esta era tecida sem costura,

em peça única de alto a baixo.

24 Disseram então entre si: ‘Não vamos dividir a túnica.

Tiremos a sorte para ver de quem será’.

Assim se cumpria a Escritura que diz:

‘Repartiram entre si as minhas vestes

e lançaram sorte sobre a minha túnica’.

Assim procederam os soldados.

Este é o teu filho. Esta é a tua mãe.

25 Perto da cruz de Jesus, estavam de pé

a sua mãe, a irmó da sua mãe, Maria de Cléofas,

e Maria Madalena.

26 Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que

ele amava, disse à mãe: ‘Mulher, este é o teu filho’.

27 Depois disse ao discípulo: ‘Esta é a tua mãe’.

Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo.

Tudo está consumado.

28 Depois disso, Jesus, sabendo que tudo estava consumado,

e para que a Escritura se cumprisse até o fim,

disse: ‘Tenho sede’.

29 Havia ali uma jarra cheia de vinagre.

Amarraram numa vara uma esponja embebida de vinagre

e levaram-na à boca de Jesus.

30 Ele tomou o vinagre e disse: ‘Tudo está consumado’.

E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

E logo saiu sangue e água.

31 Era o dia da preparação para a Páscoa.

Os judeus queriam evitar

que os corpos ficassem na cruz durante o sábado,

porque aquele sábado era dia de festa solene.

Então pediram a Pilatos

que mandasse quebrar as pernas aos crucificados

e os tirasse da cruz.

32 Os soldados foram

e quebraram as pernas de um e depois do outro

que foram crucificados com Jesus.

33 Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava

morto, não lhe quebraram as pernas;

34 mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança,

e logo saiu sangue e água.

35 Aquele que viu, dá testemunho e seu testemunho é

verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade,

para que vós também acrediteis.

36 Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura,

que diz: ‘Não quebrarão nenhum dos seus ossos’.

37 E outra Escritura ainda diz:

‘Olharão para aquele que transpassaram’.

Envolveram o corpo de Jesus com os aromas, em faixas de linho.

38 Depois disso, José de Arimatéia,

que era discípulo de Jesus

– mas às escondidas, por medo dos judeus –

pediu a Pilatos para tirar o corpo de Jesus.

Pilatos consentiu.

Então José veio tirar o corpo de Jesus.

39 Chegou também Nicodemos,

o mesmo que antes tinha ido a Jesus de noite.

Trouxe uns trinta quilos de perfume

feito de mirra e aloés.

40 Então tomaram o corpo de Jesus

e envolveram-no, com os aromas, em faixas de linho,

como os judeus costumam sepultar.

41 No lugar onde Jesus foi crucificado, havia um jardim

e, no jardim, um túmulo novo,

onde ainda ninguém tinha sido sepultado.

42 Por causa da preparação da Páscoa, e como o túmulo

estava perto, foi ali que colocaram Jesus.

Palavra da Salvação.

-Gloria a vós Senhor❣

❤❤ ORAÇÃO❤❤

Senhor Jesus, pensando em vossa morte, não me deixo levar pela tristeza. Nos vossos últimos momentos, vós nos falais de vida, de comunidade fraterna,de família dos filhos de Deus. E nos dizeis que entre nós irmãos e irmãs temos Maria. Que é nossa irmã e também nossa mãe, porque foi através dela que viestes  viver nossa vida para nos fazer viver da vossa, dá vida divina.

Amém❣

Hoje é um dia de meditar a Paixão de Nosso Senhor por nós. Esse amor é tão grande que ele se fez carne, habitou entre nós e padeceu. Sofreu. Foi açoitado, esbofeteado, torturado. Tudo para que tenhamos a vida. Vida em abundância. Vida eterna. Convido a todos a rezerem, a partir de hoje, na sua casa, no seu trabalho, ou junto a comunidade a Novena em honra a Divina Misericórdia

  

Também por nós foi crucificado…

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo

Na Semana Santa do Ano da Fé somos convidados a confrontar-nos com os vários “Mistérios da Fé” celebrados nesses dias abençoados. Pensando bem, boa parte da nossa Profissão de Fé (Credo) está relacionada estreitamente com as celebrações da Semana Santa e da Páscoa. É um motivo a mais para que a vivamos intensamente, deixando-nos envolver por Deus, que veio ao nosso encontro de maneira tão misericordiosa salvadora.

Em nossa fé cristã católica professamos que Deus enviou ao mundo seu único Filho, Jesus Cristo para nos salvar. Em tudo, o Filho assumiu a nossa condição humana, menos no pecado; São Paulo bem recorda que o pecado nunca dominou sobre Ele. Salvar, significa dar sentido pleno à nossa existência e a participação na felicidade completa; isso somente Deus pode nos dar. O Filho, feito homem, acolheu a todos nós em sua santa humanidade, mostrou a luz de Deus para que possamos viver iluminados pela verdade e ele mesmo se fez para nós o caminho, a verdade e a vida.

Poderia Deus realizar o seu desígnio a nosso respeito – de vida plena para todos – sem que o Filho passasse pela contradição da condição humana, o sofrimento e a morte, como experimentam todos os descendentes de Adão e aqueles que procuram nesta vida ser fiéis a Deus?  Queria Deus Pai o sofrimento de seu Filho? Este é um grande mistério e não cabem aqui respostas fáceis e superficiais. Mas é certo que Deus não quer o sofrimento para ninguém, muito menos o quis para seu amado Filho.

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O fato é que Jesus Cristo, na sua condição humana, permaneceu fiel a Deus e à sua missão, não obstante as ameaças e perseguições. E Deus Pai aceitou esta radical “obediência” de Cristo: “obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8). Nessa total fidelidade a Deus, Ele nos deu o exemplo, para que sigamos os seus passos e permaneçamos fieis a Deus sempre; nada deve ser colocado acima dessa total fidelidade a Deus. Ao meu ver, o mistério da cruz de Cristo só se explica pela sua total comunhão com Deus Pai, que teria sido rompida se Jesus entrasse no jogo das conveniências humanas ou do medo. Ele não seguiu o “politicamente correto” para salvar a própria pele. Muitíssimos, a seu exemplo, também enfrentaram todo tipo de desprezo e discriminação por causa da “verdade”. Tantos morreram mártires, como o próprio Jesus.

Nossa fé católica em Jesus Cristo não nos permite escolher apenas algum aspecto de sua pessoa ou de seu ensinamento, que mais nos agrade. E a Igreja está no mundo para testemunhar a fé completa sobre Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. É a fé pascal em Cristo ressuscitado, que triunfou sobre o pecado, o ódio e a morte; somos as testemunhas de sua ressurreição e isso constitui um ousadíssimo aspecto de nossa profissão de fé.

Mas isso não nos pode levar a esquecer a cruz de Cristo. É uma tentação insidiosa, apresentar ao mundo apenas o Cristo glorioso, sem referência ao Cristo crucificado. A tendência humana de fugir da cruz pode levar à busca de uma religião fácil e “politicamente correta”, onde só há “vantagens” e nenhuma escolha difícil ou renúncia. Jesus não ensinou um Cristianismo sem necessidade de conversão, sem cruz, sem colocar o reino de Deus como centro de referência para a vida do homem e do mundo. O seu caminho para a vida plena e para a participação na glória de Deus passa pela cruz.

O papa Francisco, na sua primeira missa com o colégio Cardinalício no dia 14 de março, ainda na Capela Sistina, observou que a Igreja, deixando de lado Jesus Cristo crucificado, tornar-se-ia apenas uma “ONG piedosa”… Falando aos jovens, no Domingo de Ramos, convidou-os a tomarem, com ele, o caminho para a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro e encorajou-os a não terem vergonha da cruz de Cristo e a abraçarem com coragem a própria cruz, no seguimento de Cristo.

Quando professamos nossa fé, lembremos sempre que a graça de nossa “liberdade de filhos de Deus” custou “um preço muito alto” (cf 1Cor 6,20): nada menos que o sofrimento, o sangue derramado e a morte do Filho de Deus feito homem! Celebrando a Páscoa, agradeçamos por tão grande presente! E em tudo sejamos fiéis a Deus também nós, como foi nosso Salvador.

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO: calvário, morte e sepultamento de Cristo

A tarde de Sexta-feira Santa apresenta o drama imenso da morte de Cristo no Calvário. A cruz erguida sobre o mundo segue de pé como sinal de salvação e de esperança. Com a Paixão de Jesus segundo o Evangelho de João comtemplamos o mistério do Crucificado, com o coração do discípulo Amado, da Mãe, do soldado que lhe traspassou o lado.

São João, teólogo e cronista da paixão nos leva a comtemplar o mistério da cruz de Cristo como uma solene liturgia. Tudo é digno, solene, simbólico em sua narração: cada palavra, cada gesto. A densidade de seu Evangelho agora se faz mais eloqüente. E os títulos de Jesus compõem uma formosa Cristologia. Jesus é Rei. O diz o título da cruz, e o patíbulo é o trono onde ele reina. É a uma só vez, sacerdote e templo, com a túnica sem costura com que os soldados tiram a sorte. É novo Adão junto à Mãe, nova Eva, Filho de Maria e Esposo da Igreja. É o sedento de Deus, o executor do testamento da Escritura. O Doador do Espírito. É o Cordeiro imaculado e imolado, o que não lhe romperam os ossos. É o Exaltado na cruz que tudo o atrai a si, quando os homens voltam a ele o olhar.

A Mãe estava ali, junto à Cruz. Não chegou de repente no Gólgota, desde que o discípulo amado a recordou em Caná, sem ter seguido passo a passo, com seu coração de Mãe no caminho de Jesus. E agora está ali como mãe e discípula que seguiu em tudo a sorte de seu Filho, sinal de contradição como Ele, totalmente ao seu lado. Mas solene e majestosa como uma Mãe, a mãe de todos, a nova Eva, a mãe dos filhos dispersos que ela reúne junto à cruz de seu Filho.

Maternidade do coração, que infla com a espada de dor que a fecunda.

A palavra de seu Filho que prolonga sua maternidade até os confins infinitos de todos os homens. Mãe dos discípulos, dos irmãos de seu Filho. A maternidade de Maria tem o mesmo alcance da redenção de Jesus. Maria comtempla e vive o mistério com a majestade de uma Esposa, ainda que com a imensa dor de uma Mãe. São João a glorifica com a lembrança dessa maternidade. Último testamento de Jesus. Última dádiva. Segurança de uma presença materna em nossa vida, na de todos. Porque Maria é fiel à palavra: Eis aí o teu filho.

O soldado que traspassou o lado de Cristo no lado do coração, não se deu conta que cumpria uma profecia realizava um últmo, estupendo gesto litúrgico. Do coração de Cristo brota sangue e água. O sangue da redenção, a água da salvação. O sangue é sinal daquele maior amor, a vida entregue por nós, a água é sinal do Espírito, a própria vida de Jesus que agora, como em uma nova criação derrama sobre nós.

A Celebração

Hoje não se celebra a missa em todo o mundo. O altar é iluminado sem mantel, sem cruz, sem velas nem adornos. Recordamos a morte de Jesus. Os ministros se prostram no chão frente ao altar no começo da cerimônia. São a imagem da humanidade rebaixada e oprimida, e ao mesmo tempo penitente que implora perdão por seus pecados.

Vão vestidos de vermelho, a cor dos mártires: de Jesus, o primeiro testeunho do amor do Pai e de todos aqueles que, como ele, deram e continuam dando sua vida para proclamar a libertação que Deus nos oferece.

Ação litúrgica na Morte do Senhor

1. A ENTRADA

A impressionante celebração litúrgica da Sexta-feira começa com um rito de entrada diferente de outros dias: os ministros entram em silëncio, sem canto, vestidos de cor vermelha, a cor do sangue, do martírio, se prostram no chão, enquanto a comunidade se ajoelha, e depois de um espaço de silêncio, reza a oração do dia.

2. Celebração da Palavra

Primeira Leitura
Espetacular realismo nesta profecia feita 800 anos antes de Cristo, chamada por muitos o 5º Evangelho. Que nos introduz a alma sofredora de Cristo, durante toda sua vida e agora na hora real de sua morte. Disponhamo-nos a vivê-la com Ele.

Leitura do Profeta Isaías 52, 13 ; 53

Eis que meu Servo há de prosperar, ele se elevará, será exaltado, será posto nas alturas.
Exatamente como multidões ficaram pasmadas à vista dele – tão desfigurado estava seu aspecto e a sua forma não parecia a de um homem – assim agora nações numerosas ficarão estupefactas a seu respeito,reis permanecerão silenciosos, ao verem coisas que não lhes haviam sido contadas e ao tomarem consciência de coisas que não tinham ouvido.

Quem creu naquilo que ouvimos, e a quem se revelou o braço do Senhor? Ele cresceu diante dele como um renovo, como raiz que brota de uma terra seca; não tinha beleza nem esplendor que pudesse atrair o nosso olhar, nem formosura capaz de nos deleitar.

Era desprezado e abandonado pelos homens, um homem sujeito à dor, familiarizado com a enfermidade, como uma pessoa de quem todos escondem o rosto; desprezado, não fazíamos nenhum caso dele.
E no entanto, era as nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas dores que ele carregava.
Mas nós o tinhamos como vítima do castigo, ferido por Deus e humilhado.

Mas ele foi trespassado por causa de nossas transgressões, esmagado em virtude de nossas iniqüidades.

O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre ele, sim, por suas feridas fomos curados.

Todos nós como ovelhas, andávamos errantes, seguindo cada um o seu próprio caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós.

Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca, como cordeiro conduzido ao matadouro; como uma ovelha que permanece muda na presença de seus tosquiadores ele não abriu a boca.

Após a detenção e julgamento, foi preso. Dentre os seus contemporâneos, quem se preocupou com o fato de ter ele sido cortado da terra dos vivos, de ter sido ferido pela transgressão do seu povo?

Deram sepultura com os ímpios, o seu túmulo está com os ricos, se bem que não tivesse praticado violência nem tivesse havido engano em sua boca.

Mas o Senhor quis feri-lo, submetê-lo à enfermidade. Mas, se ele oferece a sua vida como sacrifício pelo pecado, certamente verá uma descendência, prolongará os seus dias, e por meio dele o desígnio de Deus há de triunfar.
Após o trabalho fatigante de sua alma ele verá a luz e se fartará. Pelo seu conhecimento, o justo, meu Servo, justificará a muitos e levará sbre si as suas transgressões.
Eis porque lhe darei um quinhão entre as multidões; com os fortes repartirá os despojos, visto que entregou sua alma à morte e foi contado com os transgressores, mas na verdade levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores fez intercessão.

Palavra do Senhor

Salmo responsorial

Neste Salmo, recitado por Jesus na cruz, entrecruzam-se a confiança, a dor, a solidão e a súplica: com o Homem das dores, façamos nossa oração.

Sl 30, 2 e 6. 12-13. 15-16. 17 e 25.
Senhor, em tuas mãos eu entrego meu espírito.

Senhor, eu me abrigo em ti: que eu nunca fique envergonhado; Salva-me por sua justiça. Leberta-me . em tuas mãos eu entrego meu espírito, é tu quem me resgatas, Senhor.

Pelos opressores todos que tenho já me tornei um escândalo; para meus vizinhos, um asco, e terror para meus amigos. Os que me vêem na rua fogem para longe de mim; fui esquecido, como um morto aos corações, estou como um objeto perdido.

Quanto a mim, Senhor, confio em ti, e digo: ” tú és o meu Deus!”. Meus tempos etão em tua mão: liberta-me da mão dos meus inimigos e perseguidores. Faze brilhar tua face sobre o teu servo, salva-me por teu amor. Sede firmes, fortalecei vosso coração, vós todos que esperais no Senhor.

Segunda leitura
O Sacerdote é o que une Deus ao homem e os homens a Deus… Por isso Cristo é o perfeito Sacerdote: Deus e Homem. O Único e Sumo e Eterno Sacerdote. Do qual o Sacerdócio: o Papa, os Bispos, os sacerdotes e dos Diáconos unidos a Ele, são ministros, servidores, ajudantes…

Leitura da Carta aos Hebreus 4,14-16; 5,7-9.

Temos, portanto, um sumo sacerdote eminente, que atravessou os céus: Jesus, o Filho de Deus. Permaneçamos, por isso, firmes na profissão de fé. Com efeito, não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado. Aproximemo-nos, então, com segurança do trono da graça para conseguirmos misericórdia e alcançarmos graça, como ajuda oportuna.

É ele que, nos dias de sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte; e foi atendido por causa da sua submissão. Embora fosse Filho, aprendeu, contudo, a obediência pelo sofrimento; e, levado à perfeição, se tornou para todos os que lhe obedeceram princípio da salvação eterna.

Palavra do Senhor.

Versículo antes o Evangelho (Fl 2, 8-9)

Cristo, por nós, humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o sobreexaltou grandemente e o agraciou com o Nome que é acima de todo nome.

Como sempre, a celebração da Palavra, depois da homilia conclui-se com uma ORAÇÃO UNIVERSAL, que hoje tem mais sentido do que nunca: precisamente porque comtemplamos a Cristo entregue na cruz como Redentor da humanidade, pedimos a Deus a salvação de todos, crentes e não crentes.

3. Adoração da Cruz

Depois das palavras passamos a um ato simbólico muito expressivo e próprio deste dia: a veneração da Santa Cruz é apresentada solenemente a Cruz à comunidade, cantando três vezes a aclamação:

“Eis o lenho da Cruz, onde esteve pregada a salvação do mundo. Ó VINDE ADOREMOS”, e todos ajoelhados uns instantes de cada vez, e então vamos, em procissão, venerar a Cruz pessoalmente, com um genuflexão (ou inclinação profunda) e um beijo (ou tocando-a com a mão e fazendo o sinal da cruz ); enquanto cantamos os louvores ao Cristo na Cruz :

4. A comunhão

Desde de 1955, quando Pio XII decidiu, na reforma que fez na Semana Santa, não somente o sacerdote – como até então – mas também os fiéis podem comungar com o Corpo de Cristo.

Ainda que hoje não haja propriamente Eucaristia, mas comungando do Pão consagrado na celebração de ontem, Quinta-feira Santa, expressamos nossa participação na morte salvadora de Cristo, recebendo seu “Corpo entregue por nós”.

Fonte Catequisar