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Causa de beatificação de Dom Romero nunca esteve bloqueada

(ACI/EWTN Noticias) | Autoridades do Vaticano indicaram nesta terça-feira que a causa de beatificação do Arcebispo de São Salvador (El Salvador), Dom Oscar Arnulfo Romero, não foi “desbloqueada” porque nunca esteve bloqueada.

Nesta segunda-feira a agência espanhola Efe publicou uma nota em que se destaca, citando os meios locais, que o Presidente do Pontifício Conselho para a Família, Dom Vicenzo Paglia, anunciou o “desbloqueio” da causa de beatificação de Dom Romero, durante uma Missa, realizada na localidade de Molfetta em Bari, Itália, pelos 20 anos da morte de outro Bispo, Dom Tonino Bello, presidente da organização Pax Christi.

Segundo a Efe, Dom Paglia disse na Missa que “hoje, dia da morte do bispo Tonino Bello, ficou desbloqueada a causa de beatificação de Dom Romero. Posso dizer de novo que estes dois mártires nos ajudam a viver”.

Entretanto, diversas fontes na Santa Sé assinalaram ao grupo ACI que a implicação de que a causa do Arcebispo, assassinado enquanto celebrava a Santa Missa em 24 de março de 1980, teria estado “bloqueada” sob o pontificado do Papa Bento XVI não corresponde à realidade.

Em efeito, o Papa, na conferência de imprensa durante o voo ao Brasil em sua viagem do ano 2007, assinalou sobre esta causa que “segundo as últimas informações sobre o trabalho da Congregação competente, muitos casos estão sendo estudados e sei que continuam seu curso. Sua excelência Dom Paglia me enviou uma biografia importante, que esclarece muitos pontos da questão”.

“Certamente, Dom Romero foi uma grande testemunha da fé, um homem de grande virtude cristã, que se comprometeu em favor da paz e contra a ditadura, e que foi assassinado durante a celebração da Missa, portanto, uma morte verdadeiramente ‘acreditável’, de testemunho da fé”.

O Santo Padre disse também que “havia o problema de que uma parte política queria tomá-lo injustamente para si como bandeira, como figura emblemática. Como pôr manifestar adequadamente sua figura, protegendo-a dessas tentativas de instrumentalização? Este é o problema. Está sendo examinado e eu espero com confiança o que diga a respeito a Congregação para as Causas dos Santos”.

Paradoxalmente, a pessoa citada pelo Papa Bento naquela entrevista de 2007 durante a viagem ao Brasil é o mesmo Dom Paglia, que então era bispo do Terni-Narni-Amelia na Itália.

Dom Paglia é o primeiro Bispo do movimento italiano de São Egidio, que há décadas escolheu Dom Romero como seu emblema e veio impulsionando sua causa de beatificação.

Não abandono a Cruz

Dom Murilo Krieger
Arcebispo de Salvador (BA)

Na quarta-feira última, quando o Papa Bento XVI se dirigiu ao mundo pela última vez  em uma audiência pública, penso que até as pedras da Praça São Pedro se emocionaram.

Acostumado a ler tudo o que ele escrevia, e a escutar o que falava, eu me surpreendi com a riqueza e a profundidade de suas palavras, aliadas a uma simplicidade encantadora. Se alguém ainda não tomou conhecimento delas, não deixe de ler, reler e meditar o que se pode chamar de seu testamento espiritual. São palavras que atravessarão os séculos. Para mim, o ponto alto foi sua afirmação: “Não abandono a cruz, mas permaneço de um modo novo junto ao Senhor Crucificado. Não tenho mais o poder do ofício para o governo da Igreja, mas no serviço da oração permaneço, por assim, dizer, no recinto de São Pedro”.

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Antecipando-nos à sua despedida, nós, bispos de Diocese Primaz do Brasil – Dom Gílson Andrade da Silva e Dom Giovanni Crippa, Bispos Auxiliares, e eu –, assinamos uma mensagem que resume como vemos a renúncia de Bento XVI e a eleição do seu sucessor. Ei-la:

“Tendo em vista a relevância do momento presente na vida da Igreja, decorrente da renúncia do Papa Bento XVI e da realização do Conclave de Cardeais para a eleição do novo Papa, nós, Bispos da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, nos dirigimos ao nosso povo e às pessoas de boa vontade, para as seguintes considerações:

1º – Somos gratos à Sua Santidade, o Papa Bento XVI, pelo serviço que prestou à Igreja, desde sua eleição à Cátedra de Pedro. Com solicitude incomum, cumpriu a missão recebida de Jesus Cristo, de confirmar seus irmãos na fé (cf. Lc 22,32). Pastor atento, colocou em prática as orientações do apóstolo Paulo: “Proclama a Palavra, insiste oportuna ou inoportunamente, convence, repreende, exorta, com toda a paciência e com a preocupação de ensinar” (2Tm 4,2). Como não destacar, dentre os seus ensinamentos, a apresentação que nos fez de Jesus Cristo? A leitura de seus discursos, homilias, encíclicas, alocuções e, particularmente, de seu livro “Jesus de Nazaré”, faz arder o nosso coração (Lc 24,32). Peçamos ao Pastor Supremo que dê a esse fiel sucessor de Pedro graças e bênçãos especiais.

2º – Atendendo ao pedido que Bento XVI nos fez em 11 de fevereiro último, confiemos a Igreja à solicitude de Nosso Senhor Jesus Cristo que, “Cabeça do corpo que é a Igreja” (Cl 1,18), está, mais do que nunca, no meio de nós (cf. Mt 28,20).

3º – Segundo a bela expressão do Bem-aventurado Papa João Paulo II, “a Igreja está sempre no Cenáculo” (DV 66) – isto é, persevera em oração com Maria, a Mãe de Jesus (cf. At 1,14). Peçamos, pois, à Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Para tomar consciência da força de nossa oração, lembremo-nos da Comunidade de Jerusalém, que sofria com a prisão de Pedro. “Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja orava continuamente a Deus por ele” (At 12,5). A resposta de Deus a essas preces foi imediata e surpreendente: Pedro foi libertado. Nossas orações, antes e durante o Conclave, devem voltar-se para que o escolhido seja o  Pastor que Deus de antemão preparou para a sua Igreja. Após o Conclave, elas deverão ser feitas para pedir que o novo sucessor de Pedro tenha muita sabedoria e saúde no exercício de seu ministério.

4º – Destacamos a pressão que muitos, especialmente através dos meios de comunicação, querem fazer sobre os Cardeais que participarão da eleição do Romano Pontífice. Essa pressão se manifesta pela difusão de notícias muitas vezes não comprovadas e, outras tantas, falsas e caluniosas, prejudicando gravemente pessoas e instituições. Conclamamos os católicos a se concentrarem naquilo que é essencial: rezar pelo Papa Bento XVI; rezar para que o Espírito Santo ilumine o Colégio de Cardeais; rezar pelo futuro Papa. Somos conduzidos por uma certeza: o destino da barca de Pedro está nas mãos de Deus (cf. Comunicação da Secretaria de Estado – Vaticano, 23.02.13).”

Deus o recompense por tudo, Papa emérito Bento XVI!

Onde encontrar Jesus Cristo hoje

Dom Murilo Krieger
Arcebispo de São Salvador (BA) e Primaz do Brasil

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, exclamou João Batista, ao ver Jesus que vinha ao seu encontro (Jo 1,29). E completou: “Dou testemunho: ele é o Filho de Deus” (v. 34). Para os discípulos de João Batista, esse anúncio foi tão importante que o deixaram, para seguir Jesus. Um outro João, o evangelista, ao final de sua vida sintetizou o que tinha sido para ele a convivência de três anos com Jesus de Nazaré: “O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que a nossas mãos apalparam… isso vos anunciamos” (1Jo 1,1 e 3). João evangelista deixava claro, assim, que seu anúncio partia de uma experiência pessoal, que o havia transformado radicalmente. Anunciava, também, que todos podem fazer idêntica experiência – isto é, podem ouvir, ver e tocar o Filho de Deus, porque ele veio até nós, assumiu nossa carne e se manifesta a quem o procura.

Se é próprio de Deus manifestar-se, para nos revelar sua intimidade, e se, em vista disso, nos enviou seu Filho, onde encontrar Jesus Cristo hoje? De que modo e em que situações ele se revela a nós? Em que situações ele se faz presente? É importante ter respostas claras a essas perguntas, já que o encontro com Cristo é o ponto de partida para uma autêntica conversão.

Destacarei sete lugares de encontro com Jesus de Nazaré – isto é, onde podemos encontrá-Lo em nossos dias. Podemos encontrá-Lo:

1º – Em sua Palavra. Os Evangelhos apresentam, numa linguagem clara, compreensível a todos, o que Jesus falou e o modo como viveu entre nós. Se prestarmos atenção às suas palavras, será inevitável: nossos corações se transformarão e produziremos frutos de santidade.

2º – Nos pastores que dirigem a Igreja. Cristo, pastor dos pastores, assiste os pastores que dirigem e governam o povo de Deus, como ele mesmo disse aos apóstolos: “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10,16).

3º – Nos sacramentos. Os sacramentos são ações de Cristo, que os administra por meio de seus ministros. Os sacramentos são santos por si mesmos e, “quando tocam nos corpos, infundem, por virtude de Cristo, a graça nas almas” (Paulo VI). Cristo está sempre presente por sua força nos sacramentos, de tal forma que “quando alguém batiza, é Cristo mesmo que batiza” (Santo Agostinho).

4º – Na Eucaristia. O sacramento da Eucaristia contém o próprio Cristo e é, como afirmava Santo Tomás de Aquino, “como que a perfeição da vida espiritual e o fim de todos os sacramentos”. A presença de Cristo nesse sacramento é de uma intensidade sem par; é uma presença especial, uma presença “real”, “não a título exclusivo, como se as outras presenças não fossem “reais”, mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem” (Paulo VI).

5º – Quando a Igreja reza. Cristo está presente em sua Igreja quando ela reza, sendo ele quem “roga por nós, roga em nós e por nós é rogado; roga por nós como nosso Sacerdote; roga em nós como nossa Cabeça; é rogado por nós como nosso Deus” (Santo Agostinho). O próprio Jesus prometeu: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles” (Mt 18,20).

6º – No pobre. Quando fazemos o bem a um irmão necessitado, nós o fazemos ao próprio Cristo: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). Mais: é Cristo que faz essas obras por meio de nós, socorrendo assim as pessoas necessitadas.

7º – Em nossos corações. Cristo habita pela fé em nossos corações (cf. Ef 3,17) e neles derrama o amor de Deus pela ação do Espírito Santo que nos dá (cf. Rm 5,5).

Penso ter ficado implícito que o cristianismo não é apenas um conjunto de normas éticas e nem se resume a uma proposta de paz e de solidariedade; ele é, acima de tudo, o encontro com uma pessoa – a pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus Salvador. É ele é que dá novas perspectivas à nossa vida. Cabe-nos, pois, estar atentos a seus passos em nossos caminhos. Acolhendo-o, teremos a possibilidade de conhecê-lo sempre melhor e de apresentá-lo a outros.