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Tolerância e relativismo

Dom Redovino Rizzardo
Bispo de Dourados (MS)

Ao longo do mês de setembro, um filme produzido nos Estados Unidos, ridicularizando a figura de Maomé, fundador do Islã, ocupou as manchetes dos meios de comunicação social de todo o mundo, pelas graves conseqüências que provocou. Foram inúmeros os países em que os protestos dos muçulmanos causaram dezenas de mortes, entre elas, do embaixador norte-americano na Líbia.

Poucos dias antes, o Festival de Cinema de Veneza havia premiado o filme “Paraíso: Fé”, que zomba a religião católica ao mostrar uma mulher masturbando-se com um crucifixo. Mas, diferentemente do que aconteceu com a produção norte-americana, foram raras as pessoas que tomaram a defesa da Igreja. Para uma delas, o motivo é simples: “Uma das características da “cultura” atual é atacar os católicos e, em seguida, defender-se apoiando-se na liberdade de expressão“. De igual teor foi a reação do diretor de uma revista francesa ao se defender das críticas que recebeu, por ter acirrado mais ainda os ânimos, publicando charges contra Maomé, poucos dias depois do aparecimento do filme norte-americano: “As religiões não podem ser questionadas? Ou só é possível fazê-lo contra a Igreja Católica?“.

Dois pesos e duas medidas: denegrir o Cristianismo é direito, arte e cultura, e ai de quem se atreve a divergir! Pelo contrário, ofender o Islã é preconceito e intolerância, como afirmou a própria Dilma Roussef no discurso que proferiu nas Nações Unidas, no dia 25 de setembro: «Como presidente de um país no qual vivem milhares de brasileiros de confissão islâmica, registro neste plenário nosso veemente repúdio à escalada de preconceito islamofóbico em países ocidentais».

Mas, até que ponto é lícito ferir a cultura e a religião de quem pensa diferente? Violência gera violência: à prepotência da imprensa, que se julga dona da verdade e acima de qualquer questionamento, há muçulmanos que se sentem no direito e no dever de responder com a força das armas! Em pronunciamento feito no dia 12 de setembro, o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, lembrou que o caminho a ser percorrido é diferente: “O respeito pelas crenças, pelos textos, pelos personagens e pelos símbolos das diferentes religiões é uma condição essencial para a coexistência pacífica dos povos“.

Numa sociedade que se pensa cada vez mais tolerante, o que mais parece faltar é tolerância, sobretudo em matéria de ética, moral e religião. Foi o que disse o papa Bento XVI na entrevista que concedeu ao jornalista alemão Peter Seewald, em 2010: «O que se está difundindo hoje é um novo tipo de intolerância. Existem maneiras de pensar bastante difusas que devem ser impostas a todos. É o que acontece, por exemplo, quando se afirma que, em nome da tolerância, não devem existir crucifixos nos edifícios públicos. No fundo, estamos eliminando a tolerância, porque, na realidade, isto significa que a religião e a fé cristã já não podem se expressar de modo visível.

A mesma coisa acontece quando, em nome da não discriminação, se quer obrigar a Igreja Católica a mudar a própria posição em relação à homossexualidade ou à ordenação sacerdotal das mulheres. Na prática, isso significa que não lhe é permitido viver a própria identidade, substituindo-a por uma religião abstrata como critério tirânico último, ao qual todos se devem dobrar. E isso seria liberdade, pelo simples fato de que nos livraria de tudo o que era praticado anteriormente.

A verdadeira ameaça diante de qual nos encontramos hoje é a de que a tolerância seja abolida em nome da própria tolerância. Há o perigo de que a razão ocidental afirme ter finalmente descoberto o que é justo e apresente uma pretensão de totalidade que é inimiga da liberdade. Creio ser necessário denunciar fortemente esta ameaça. Ninguém é obrigado a ser cristão. Mas também ninguém deve ser constrangido a viver segundo a ‘nova religião’, como se fosse a única e verdadeira, vinculante para toda a humanidade“.

Para o papa, a “nova religião” que está penetrando em todos os segmentos da sociedade é «a ditadura do relativismo, para quem nada é definitivo, e tem como único critério o próprio eu e suas vontades». Contudo, num mundo que assume como religião o relativismo, o que determina o pensamento e as atitudes das pessoas só poderá ser um novo paganismo…

Festival Internacional de Cinema João Paulo II

Após a boa audiência no ano de 2009, acontece em Miami (EUA) a segunda edição do Festival Internacional de Cinema João Paulo II. Esta versão da mostra cinematográfica de temática religiosa e baseada no Catecismo e na doutrina de João Paulo II teve início no último dia 17 de fevereiro, na Sala de Artes Coral Gables, e termina no próximo sábado, 26.

“O Mistério do Amor” é o tema central desta edição do evento, no qual estão sendo apresentados 28 filmes oriundos de diversos países, como Espanha, França, Nova Zelândia, Polônia, Reino Unido, Portugal e o próprio Estados Unidos.

Uma das exibições de destaque é o documentário “Nove Dias que mudaram o mundo”, no qual são abordados os principais fatos da visita do Papa João Paulo II à Polônia, em 1979.

O Festival foi aberto com a sessão do filme “Out of the darkness” (“Saída da Escuridão”), que conta a história real de Shelley Lubben, que deixou a vida de pornografia através da fé em Jesus Cristo. “Algo que quisemos destacar ao final da obra é que, nessas situações, (a pessoa) se encontra em um lugar escuro e o único que lhe resta é ter esperança de que na realidade há uma luz”, declarou o produtor executivo do filme, John Saffian.

Outro filme de destaque na programação é “No greater love” (“Não há amor maior”), que transporta o público a um monastério de monjas carmelitas, discretamente localizado em Notting Hill, bairro da região oeste de Londres.

Há ainda “San Bernadette de Lourdes”, um retrato fiel dos acontecimentos ocorridos na França em 1858, e “Life Happens” (“A vida acontece”), sobre o tema do aborto.

Ainda serrão exibidos, entre outros, filmes como “O último cume”, documentário espanhol bem-sucedido sobre o sacerdote Pablo Domínguez; e “The Calling” (“O Chamado”), a respeito das alegrias e ansiedades de quem opta pela vida religiosa.

O festival também conta com a presença de produtores de cinema que encontraram na arte cinematográfica uma maneira de promover a beleza, a vida e a dignidade humanas. Entre eles o diretor da produtora “Grassroots Filmes”, Joseph (Jou) Campo, conhecido por produzir diversos documentários sobre fé e religião.

O executivo cinematográfico norte-americano destacou que, como produtor, acredita ser importante promover a dignidade humana através do cinema, “porque é uma maneira de se comunicar com o mundo” por meio da narrativa de experiências pessoais que possam afetar de forma positiva outras pessoas.

O festival nasceu inspirado na carta que João Paulo II escreveu, em 1999, aos artistas, “aos que com apaixonada entrega buscam novas ‘epifanias’ da beleza para oferecê-las ao mundo através da criação artística”.

Fonte Canção Nova

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