As igrejas de Niemeyer

Na noite de ontem o arquiteto Oscar Niemeyer faleceu. Ele estava internado a semanas e sua saúde não era muito boa. Morreu as 104 anos e deixou um legado arquitetônico enorme. Entre muitas obras várias igrejas. Leia a matéria.

Ministério da educação – O arquiteto Oscar Niemeyer é uma daquelas personalidades que não misturam as convicções pessoais com os compromissos de trabalho. Ateu, ele é autor de dezenas de projetos que incluem catedrais, igrejas e capelas construídas em Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e até no exterior, em países como Argélia e Alemanha. Somente na capital da República, o carioca de Laranjeiras projetou sete monumentos: Capela Nossa Senhora da Alvorada, Igreja Nossa Senhora de Fátima, Capela do Palácio do Jaburu, Igreja Apostólica Ortodoxa Antioquino de Brasília, Catedral Santa Maria dos Militares Rainha da Paz, Capela do Anexo IV da Câmara dos Deputados e Catedral Metropolitana de Brasília. Esta última é famosa no mundo inteiro e tornou-se um dos cartões-postais da cidade e do Brasil.

As sete belezas do maior nome da arquitetura brasileira estarão presentes no livro As igrejas de Oscar Niemeyer, com outras criações de mesma magnitude, entre elas, composições que não chegaram a sair dos croquis.  O livro reúne imagens em cores das construções, projeções, esboços e relatos da vida do arquiteto expostos por ele mesmo. Na obra, Oscar Niemeyer conta, aos 103 anos de idade, como aceitou dar vida a edificações voltadas para cultos sagrados.

Em entrevista ao jornal Correio Braziliense, ano passado, Niemeyer destacou a sua intenção ao publicar um livro contendo apenas criações arquitetônicas religiosas, falou sobre os comentários de ser o ateu mais religioso do Brasil e adiantou quais serão seus próximos trabalhos.

Originalidade

Para o professor do Departamento de Arquitetura da Universidade de Brasília (UnB), José Carlos Coutinho, o título do livro de Niemeyer, por si só, já é surpreendente. “A surpresa é que, mesmo sendo ateu, comunista e materialista, ele ainda assim é pai de vários monumentos dotados de espiritualidade. Sinal de que a própria Igreja se rende ao que ele projeta. Niemeyer é um criador autêntico e ele se orgulha dessa originalidade”, acredita o docente.

O traço de Niemeyer também impressiona quem não é especialista em arquitetura. “Não sei explicar como ele consegue fazer obras voltadas à religião. Só pode ser uma coisa divina. Tudo que ele desenhou tem um sentimento dele”, acredita a auxiliar de serviços gerais Thaís Miranda Jesus, 30 anos. Moradora da Ceilândia, ela costuma frequentar a Catedral Santa Maria dos Militares (Rainha da Paz), no Eixo Monumental. “Assim como ele (Oscar), eu não tenho religião, mas quando entro aqui, sinto paz”, resume.

Assim como Thaís, a vendedora Josyleide Pereira Santos, 39 anos, diz sentir-se em casa quando entra na Igreja Nossa Senhora de Fátima, mais conhecida como Igrejinha, construída na 307/308 Sul. “Não há diferença alguma se ela foi feita por um religioso ou um descrente em religião. O que importa é que a igreja traz uma sensação de tranquilidade, foi muito benfeita e tem um certo requinte. Eu acho que ela tem um design diferente”, descreveu a moradora de Sobradinho. Desenhado por Niemeyer, o espaço ganhou formas que, de longe, já identificam a autoria da obra. “Os traços dele são marcantes, não tem como errar ao dizer de quem é a obra”, afirma o auxiliar administrativo Fernando Andrade, 27 anos.

Perguntas para Oscar Niemeyer

Por que o senhor decidiu publicar um livro que conta apenas com as igrejas cujos projetos são de sua autoria?
Acredito que o público vai constatar, numa obra produzida com muito capricho, como um arquiteto, ao longo de um bom tempo, se dedicou a um tema que o entusiasma desde jovem (desde a Pampulha), havendo projetado cerca de três dezenas de templos religiosos. Nada incomum. Na apresentação que escrevi, tento esclarecer o que para muitos é um paradoxo: o fato de um arquiteto comunista, descrente das coisas religiosas, ter-se voltado com tamanha fidelidade ao tema.

Qual é a abrangência das duas obras, do livro e da revista?
Esse duplo lançamento já é por si mesmo um ponto de atração. Ambas as publicações chamam a atenção para as minhas obras recentes já a caminho de sua execução. E tratam-se de projetos que me agradam em particular, como é o caso da nova catedral desenhada para Belo Horizonte, que, espero, irá agradar tanto quanto a de Brasília.

Qual é a igreja projetada pelo senhor que, pessoalmente, lhe parece a mais interessante?
Prefiro não destacar nenhuma delas. É claro que tenho um carinho todo especial pela igrejinha de São Francisco de Assis, na Pampulha (em Belo Horizonte). Afinal, foi um dos meus primeiros trabalhos — como único arquiteto responsável.

Há quem diga que o senhor é o ateu mais religioso e espiritualista do Brasil?
Acho que sim. Lembro-me bem do que um núncio apostólico (representante diplomático permanente da Santa Sé que exerce o posto de embaixador) falou sobre a Catedral de Brasília, louvando a possibilidade de os crentes olharem pelos vidros transparentes desse templo os espaços infinitos onde acreditam estar o Senhor.

Como consegue passar tanta espiritualidade nos monumentos que projetou, mesmo sendo um ateu?
Acredito que essa mensagem seja assimilada pelo público não em razão de uma fé que não possuo, mas em virtude do meu cuidado em realizar uma obra capaz de exprimir a minha busca da beleza, inseparável do meu interesse pela surpresa arquitetural. Fico sempre contente em saber que as minhas igrejas causam agrado e o espanto necessário.

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