No domingo, 4 de outubro, a Igreja Católica viveu uma data especial: o oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis, ocorrida na noite de 3 para 4 de outubro de 1226. Em Roma, o Papa Leão XIV dedicou parte do Angelus à memória do santo de Assis e renovou o apelo pela paz entre os povos. Em Assis, uma missa solene na Basílica de São Francisco, presidida pelo cardeal Matteo Zuppi, reuniu milhares de fiéis de toda a Itália. A efeméride marca um dos pontos culminantes do Ano Jubilar Franciscano, instituído para todo o ano de 2026, que oferece aos fiéis a possibilidade de obter indulgência plenária.
Um domingo marcado pela memória de Francisco
No Angelus do dia 4 de outubro, na Praça de São Pedro, Leão XIV comentou o Evangelho do dia — a parábola dos vinhateiros (Mateus 21, 33-43) — e aproveitou a data para recordar a figura de Francisco de Assis. “Precisamente hoje, no oitavo centenário da sua morte, desejo recordar um operário que trabalhou com grande fruto na vinha do Senhor: São Francisco de Assis, a quem o próprio Jesus pediu que reparasse a sua Igreja”, afirmou o papa.
Leão XIV destacou que o santo “edificou, antes de mais, a sua própria vida sobre o alicerce de Cristo, partilhando a sua pobreza, a sua alegria e os seus sofrimentos, até ao sinal místico dos estigmas”. Para o pontífice, Francisco “reparou [a Igreja] em virtude da fé no Senhor Jesus, sanando as fissuras da discórdia com o testemunho do amor fraterno” — uma leitura que liga a espiritualidade franciscana à necessidade de reconciliação também no tempo presente, marcado por conflitos armados em diferentes partes do mundo.
Ao final da reflexão, o papa convidou os fiéis a uma atitude concreta: “Enquanto celebramos o ano jubilar franciscano, imploremos com perseverança o dom da paz e comprometamo-nos sinceramente a construir a concórdia entre os povos.”
Oito séculos depois: o que é o Ano Jubilar Franciscano
A data de 4 de outubro não é isolada: integra o Ano Jubilar Franciscano, instituído por decreto da Penitenciaria Apostólica, aprovado pelo Papa Leão XIV e publicado em 10 de janeiro de 2026. O jubileu, que se estende até 10 de janeiro de 2027, comemora o oitavo centenário da morte de Francisco, ocorrida em 3 de outubro de 1226 — episódio que a tradição franciscana chama de “Trânsito de São Francisco”.
Segundo o documento, este ano jubilar representa “o cúlmine e o cumprimento de todas as celebrações precedentes” relacionadas ao santo, somando-se a jubileus anteriores já celebrados em torno do presépio de Greccio, do Cântico das Criaturas e dos sagrados estigmas. A Penitenciaria Apostólica também descreve o Ano Jubilar Franciscano como uma espécie de extensão espiritual do Jubileu Ordinário de 2025, prolongando seu espírito de conversão e esperança.
O que diz a Igreja sobre a indulgência plenária
Como em outros anos jubilares, a Igreja oferece aos fiéis a possibilidade de obter indulgência plenária durante o período. De acordo com o decreto, as condições incluem a confissão sacramental, a comunhão eucarística e a oração segundo as intenções do Santo Padre, além da peregrinação a igrejas franciscanas ou a locais ligados à vida do santo, com participação devota nos ritos jubilares ou um momento de meditação adequada.
O documento também prevê a possibilidade de indulgência para quem, por idade avançada, doença ou outro impedimento sério, não puder se deslocar: nesses casos, basta unir-se espiritualmente às celebrações, oferecendo a Deus as próprias orações e sofrimentos.
Vale lembrar: na doutrina católica, a indulgência não perdoa o pecado em si — isso ocorre pelo sacramento da confissão — mas remove, segundo a fé da Igreja, as consequências temporais do pecado já perdoado.
“A paz é o único futuro possível”: a missa em Assis
Enquanto o papa falava em Roma, a Basílica de São Francisco, em Assis, recebia milhares de fiéis de toda a Itália para uma missa solene pela festa do santo. A celebração foi presidida pelo cardeal Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha e presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI).
Em sua homilia — que expressa a leitura pastoral do próprio cardeal, e não um pronunciamento do magistério oficial da Igreja —, Zuppi organizou a reflexão em torno da expressão “Laudato si’, louvado sejas”, que abre o Cântico das Criaturas de Francisco. O cardeal afirmou que o tempo presente “é marcado por guerras terríveis, por uma loucura que enlouquece, onde a única razão a ser buscada é a paz e a justiça, pois somente elas permitem encontrar e defender todas as razões”. E completou: “Laudato si’, frei Francisco, por nos lembrar que a guerra não é um destino e que a paz começa por nós e é o único futuro possível.”
Zuppi também criticou o que chamou de “cultura do poder, vulgar e intrusiva, enganosa”, apontando “interesses econômicos descarados e enormes” e “nacionalismos que arruínam as nações” como obstáculos à fraternidade pregada por Francisco. Para o cardeal, diante desse cenário, os cristãos devem se unir “à voz doce e forte de São Francisco e de seus muitos e incontáveis filhos para dizer sempre, mesmo nas adversidades […] Laudato si'”.
Uma espiritualidade que atravessa os séculos
Oito séculos depois de sua morte, Francisco de Assis continua sendo evocado por Roma como referência para pensar a paz, a fraternidade e a relação do ser humano com a criação — temas que atravessam tanto o discurso oficial do papa quanto a leitura pastoral de bispos e cardeais ao redor do mundo. O Ano Jubilar Franciscano, que segue até janeiro de 2027, convida os fiéis a revisitar essa espiritualidade não como simples nostalgia histórica, mas como caminho concreto de conversão em tempos de guerras e divisões.