Por quê, Senhor?

Dom Aloísio Roque Oppermann 
Arcebispo Emérito de Uberaba (MG)

Não é difícil verificar que a queixa do salmista, estupefato diante do ímpio, de corpo nédio, saudável, e de muito sucesso na vida, tem prosseguimento nos dias atuais. O quinhão do justo continua sendo magro, acossado por mil problemas. Enquanto o homem, desligado da fé, parece nadar num oceano de felicidades, no meio de sorrisos e de vida realizada. “Suas empresas tem sucesso em todo o tempo” (Sl 10, 5). Nos dias atuais (refiro-me ao Brasil), somos uma população cristã, regida por agnósticos. Na sua maioria. As nulidades são alçadas a “chefes de cem, de quinhentos e de mil” (Ex 18, 25). As eleições são vencidas por uma ou outra pessoa íntegra, e o resto é entregue a corruptos, a ex-guerrilheiros, a foragidos da justiça, a socialistas de corte retrógrado. Não temos mais fôlego de abrigar em nosso meio um Juscelino, um Tancredo Neves, e mesmo um Castelo Branco, repletos de reta intenção. Não raramente homens públicos que deveriam educar, deseducam; quem deveria cuidar da saúde adota soluções de outra civilização; quem deveria fazer justiça está mancomunado com os corruptos. Ocupam sempre os melhores empregos.

De onde vem tal situação? Não é problema de competência intelectual, nem de gosto pelo trabalho. Ouso arriscar tres explicações. A primeira é que interpretamos mal, quando Jesus ensina que devemos procurar o último lugar. O Mestre se referia à busca de honrarias, mas não para fugir de responsabilidades. A segunda é que a nossa doutrina social, de fato, é a mais perigosa para os interesses do mundo. Ela encarna a verdadeira revolução, segundo os ensinamentos de Cristo.

O autêntico revolucionário não é Marx, mas Jesus. Por isso não podemos (segundo a visão dos que se aboletaram no poder), chegar a assumir o mando. Seria um fatal desastre. A terceira explicação – sem excluir outras compreensões – é que nós temos uma intelecção do ser humano, mais completa: cremos que existe vida após a morte. A completa realização do ser humano é após esta vida. Não cremos num paraíso terrestre. Consideramo-nos cidadãos de pleno direito aqui no planeta terra, mas relativizamos os seus valores. O ponto final não é ici bas Os nossos olhos, se volvem para o chão em que pisamos. Mas ao mesmo tempo se elevam para além do horizonte.

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