CNBB debate impacto da IA na democracia e na vida da Igreja

Bispos que integram o Conselho Episcopal Pastoral (Consep) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se reuniram em Brasília, nos dias 21 e 22 de setembro, para refletir sobre um tema que atravessa a vida contemporânea: o avanço das plataformas de inteligência artificial e seus efeitos sobre a democracia, a opinião pública e o bem comum. O encontro, que também dedicou um bloco de trabalho à comunhão eclesial em tempos de polarização, foi presidido por dom João Justino de Medeiros Silva, arcebispo de Goiânia e primeiro vice-presidente da CNBB. A pauta dialoga diretamente com a primeira encíclica do papa Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, publicada em maio deste ano e dedicada aos desafios éticos da inteligência artificial.

O que é o Consep e o que foi discutido

O Consep é o órgão executivo permanente das decisões pastorais da Assembleia Geral e do Conselho Permanente da CNBB. Reúne o presidente da CNBB, os dois vice-presidentes, o secretário-geral e os responsáveis pelas comissões episcopais permanentes, com a função de acompanhar a aplicação das diretrizes pastorais e promover a reflexão conjunta dos bispos sobre a realidade social, religiosa e cultural do país.

Nesta edição, a reunião teve a presença do núncio apostólico no Brasil, dom Giambattista Diquattro. O cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, não pôde participar da abertura por estar nos funerais de dom Dadeus Grings, arcebispo emérito de Porto Alegre, falecido no dia 21 de setembro, aos 90 anos.

Inteligência artificial, democracia e bem comum

O eixo central do encontro foi apresentado sob o título “Democracia, opinião pública na era digital – plataformas de inteligência artificial, desafios para a dignidade humana, a verdade e o bem comum”, conduzido por dom Francisco Lima, bispo de Carolina (MA) e coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura da CNBB. Ele descreveu como a transformação digital alterou a forma como as pessoas formam opinião e participam da vida pública.

“As tecnologias passaram a intermediar atividades econômicas, relações sociais, processos educativos, produção de conhecimento e disputas políticas.”

Dom Francisco Lima, bispo de Carolina

Na apresentação, dom Francisco alertou os bispos para duas armadilhas opostas: de um lado, o entusiasmo tecnológico acrítico, que trata a inteligência artificial como solução automática para problemas complexos; de outro, a tentação de atribuir à tecnologia, isoladamente, a responsabilidade por conflitos sociais que têm raízes mais profundas. Para ele, o discernimento é o caminho intermediário.

“A Inteligência Artificial é um fato e não é um destino, mas uma construção humana. Aquilo que pode ser mudado, nós podemos mudar.”

Dom Francisco Lima

O que a Igreja diz sobre tecnologia e inteligência artificial

A reflexão apresentada aos bispos tomou como referência documentos recentes do magistério. O principal deles é a encíclica “Magnifica Humanitas”, assinada pelo papa Leão XIV em 15 de maio e publicada dez dias depois, no 135º aniversário da “Rerum Novarum”, de Leão XIII — gesto que situa o texto na linhagem da Doutrina Social da Igreja, agora atualizada para a era digital.

Na encíclica, o Papa afirma que a tecnologia “não é neutra”, pois “assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”, e defende um “código ético submetido a critérios de justiça social compartilhada” diante da concentração do poder tecnológico em poucas mãos. O texto também alerta contra novas formas de desigualdade digital e defende a proteção da dignidade do trabalho humano frente à automação, insistindo em que a humanidade permaneça “magnífica e, ainda assim, ferida”, preservando “a capacidade de relação e de amor” diante de qualquer substituição tecnológica.

Entre as referências citadas na reunião do Consep também esteve a carta do papa Leão XIV aos bispos da América Latina e do Caribe, divulgada em setembro, na qual o Pontífice pede que, diante de “tantas vozes” que hoje reivindicam autoridade sobre os fiéis — inclusive no ambiente digital —, os bispos ofereçam um ensinamento “claro e paciente”, permanecendo próximos do povo de Deus.

Comunhão eclesial diante da polarização

O segundo bloco do encontro, apresentado por dom Joel Portella Amado, bispo de Petrópolis (RJ) e presidente do Instituto Nacional de Pastoral, tratou da comunhão eclesial em um contexto de pluralismo e de oposição crescente entre visões de Igreja. Dom Joel recorreu ao conceito de “retrotopias”, cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman para descrever a busca por um passado idealizado como refúgio diante da insegurança do presente — um fenômeno que, segundo ele, também se manifesta em ambientes eclesiais.

“Na discordância, busca-se o consenso. O diferente exacerbado não deve nos apavorar.”

Dom Joel Portella Amado, bispo de Petrópolis

Como caminho pastoral, foi retomada a metodologia da “conversa no Espírito”, prática sinodal de diálogo fraterno entre pessoas com visões diferentes, fundamentada na oração e na escuta, tal como recomendada pelo Documento Final do Sínodo sobre a Sinodalidade. A reflexão dialogou também com os capítulos 5 e 6 das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE) da CNBB, que tratam da comunhão eclesial e da participação do povo de Deus.

Para os bispos presentes, o horizonte comum entre os dois temas discutidos — o impacto da inteligência artificial e os desafios da comunhão — é a sinodalidade, resumida na imagem de uma Igreja que caminha “todos, juntos, para frente”. Trata-se de reconhecer que tanto a tecnologia quanto o pluralismo de ideias são realidades que exigem discernimento comunitário, e não respostas apressadas de medo ou de rejeição.

O encontro do Consep não produziu, por si, novas diretrizes normativas: trata-se de um espaço de estudo e de partilha entre os bispos, cujas conclusões devem alimentar o planejamento pastoral da CNBB para os próximos anos, incluindo a preparação da 63ª Assembleia Geral. Fica, porém, um sinal de que a Igreja no Brasil já inclui a inteligência artificial entre os temas que, ao lado da fome, do trabalho e do meio ambiente, pedem leitura à luz da fé — sem ingenuidade diante dos riscos, mas também sem ceder ao fatalismo.

Fontes e referências

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