Imagem de Nossa Senhora é quebrada em MG; país vive onda de ataques

Imagem de Nossa Senhora do Rosário caída no chão de uma igreja, ao lado de um andor com flores, após ser derrubada e danificada
Imagem de Nossa Senhora do Rosário caída após ser atacada dentro da igreja em Resende Costa (MG). Foto: reprodução.

Um homem de 20 anos foi preso em flagrante na noite de terça-feira (7) após invadir a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Resende Costa (MG), e chutar uma imagem da padroeira local, do século 18, que caiu e foi danificada. A Polícia Civil ratificou a prisão por crime de intolerância religiosa. O caso, isolado em si, ocorre em meio a uma série de ataques recentes a imagens e espaços religiosos registrados em diferentes estados do país — contra símbolos católicos e também contra terreiros de candomblé e umbanda — que levou o Supremo Tribunal Federal a determinar, no fim de setembro, que a Polícia Federal investigue a onda de episódios.

O que aconteceu em Resende Costa

Segundo a Polícia Militar, o suspeito entrou pela sacristia da igreja, na Praça Coronel Sousa Maia, e correu até o salão principal, onde chutou a imagem de Nossa Senhora do Rosário, que estava sobre um andor preparado para uma celebração. A peça — patrimônio cultural inventariado do município e recentemente restaurada — caiu e teve a estrutura comprometida; castiçais e outros elementos da ornamentação também foram danificados. Testemunhas relataram que o homem proferiu ofensas à religião católica durante a ação. Fiéis o contiveram até a chegada da Polícia Militar, em meio a uma aglomeração que se formou no local.

A Polícia Civil ratificou a prisão em flagrante com base no artigo 20 da Lei nº 7.716/1989, que tipifica a prática, indução ou incitação à discriminação ou preconceito por motivo de religião. Uma perícia técnica foi acionada para avaliar a extensão dos danos, e a corporação apura ainda uma tentativa semelhante, ocorrida pouco antes, em outro templo da cidade, onde o mesmo homem teria tentado se aproximar de uma imagem durante uma novena e sido contido por fiéis. Até a publicação desta matéria, a polícia não havia divulgado o nome do suspeito, e o caso segue sob investigação — cabe à Justiça, e não a este relato, estabelecer eventual responsabilidade penal.

Em nota, a Diocese de São João del-Rei, à qual Resende Costa pertence, repudiou o ataque. Assinada por Dom José Eudes Campos do Nascimento, a nota classificou o episódio como intolerância religiosa e reafirmou o respeito às crenças e à preservação dos espaços de culto.

Parte de uma onda de ataques no país

O caso de Resende Costa se soma a uma série de episódios registrados em setembro e outubro em pelo menos sete estados. Em Fortaleza (CE), uma loja de artigos religiosos católicos foi alvo de coquetel molotov, e dois estabelecimentos católicos e um de umbanda tiveram as fachadas incendiadas na mesma noite, com um cartaz ameaçador deixado no local. Em Londrina (PR), a cabeça de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida foi arrancada em frente a uma loja de artigos religiosos. Em Salvador (BA), imagens de Nossa Senhora das Graças e de Santa Dulce dos Pobres foram destruídas em episódios distintos. Também foram registrados danos a esculturas na Catedral de São Pedro, em Rio Grande (RS), e ataques a um assentamento de Exu em Santo Amaro (BA) e a um terreiro de umbanda em Esmeraldas (MG) — evidência de que a onda atinge tanto símbolos católicos quanto de religiões de matriz africana.

Diante da repercussão, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou em 30 de setembro que a Polícia Federal investigasse os episódios, citando o recebimento de relatos de uma “aparente onda de ataques nos últimos meses” e a necessidade de atuação uniforme na apuração. O despacho também foi enviado ao procurador-geral da República, e as investigações podem ser reunidas em um único procedimento ou conduzidas separadamente.

O que dizem os números

Dados do canal Disque 100 compilados pela Agência Brasil mostram que o país registrou 1.252 denúncias envolvendo liberdade de crença ou intolerância religiosa no primeiro semestre de 2026. Praticantes de candomblé e umbanda seguem sendo, historicamente, as principais vítimas: as denúncias nessa categoria passaram de 192 para 270 no período, alta de mais de 40%, embora esses grupos representem cerca de 1% da população segundo o IBGE. Entre católicos, as denúncias mais que dobraram, saltando de 15 para 34. A pena prevista para o crime de intolerância religiosa é de um a cinco anos de reclusão, além de multa.

Motivações: o que se sabe e o que ainda não se sabe

Até o momento, as autoridades não apontaram uma causa única ou coordenada por trás dos ataques, que vêm sendo tratados caso a caso. Em alguns episódios, como o de Resende Costa, testemunhas relatam fala explícita de cunho religioso; em outros, como os incêndios em Fortaleza, há indícios de ameaça organizada, ainda sob apuração policial. Especialistas ouvidos pela imprensa têm evitado atribuir o fenômeno a um único grupo ou motivação, e a própria distribuição geográfica e religiosa dos alvos — católicos e religiões de matriz africana juntos — dificulta uma leitura simplificada.

O Brasil já viveu episódio semelhante de grande repercussão: em 1995, o então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Sérgio Von Helder chutou, ao vivo na TV, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida para argumentar que se tratava apenas de um objeto. A reação pública foi imediata, e a própria liderança da igreja à época classificou o episódio como um grave erro institucional, afastando o bispo do país por um tempo. O caso é um lembrete de que episódios desse tipo tendem a ser atos de indivíduos específicos, condenados inclusive por lideranças religiosas de fora da Igreja Católica — e não expressão de uma prática coletiva ou de ensinamento oficial de qualquer tradição de fé.

Respeito à liberdade religiosa, um valor comum

Independentemente da motivação específica de cada caso, a destruição deliberada de um símbolo sagrado — seja uma imagem católica, um assentamento de umbanda ou qualquer outro objeto de culto — fere a liberdade religiosa garantida pela Constituição e atinge a dignidade de quem tem naquele símbolo uma expressão de fé. A igreja de Resende Costa, como as demais atingidas nas últimas semanas, seguirá agora um processo de perícia, restauro possível e investigação judicial, enquanto o país acompanha se a atuação conjunta determinada pelo STF trará respostas mais claras sobre o que está por trás dessa sequência de episódios.

Fontes e referências

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