São Judas Tadeu: a história do santo das causas impossíveis

Nesta terça-feira, 28 de outubro, a Igreja Católica celebra a festa de dois apóstolos que aparecem juntos nas listas do Novo Testamento, mas sobre os quais os Evangelhos quase nada contam: Simão, chamado “o Cananeu” ou “o Zelote”, e Judas Tadeu. Enquanto Simão permanece quase anônimo na tradição popular, Judas Tadeu se tornou, com o tempo, um dos santos mais invocados do catolicismo brasileiro, conhecido como “o santo das causas impossíveis”. A combinação de um registro bíblico escasso com uma devoção popular multitudinária faz da data uma boa oportunidade para separar o que vem da fé documentada pela Igreja do que pertence à tradição e à piedade popular.

O que os Evangelhos dizem sobre Simão e Judas Tadeu

Os quatro Evangelhos e o livro dos Atos dos Apóstolos listam os Doze sempre na mesma ordem relativa, com Simão e Judas aparecendo lado a lado nas posições finais (Mateus 10,4; Marcos 3,18; Lucas 6,15; Atos 1,13). É praticamente tudo o que o texto bíblico oferece sobre eles como indivíduos.

Mateus chama Simão de “cananeu”; Lucas o chama de “zelote”. Em uma catequese dedicada aos dois apóstolos, o Papa Bento XVI explicou que os dois termos remetem à mesma raiz hebraica, qana’, que significa “ser zeloso”. Isso não significa necessariamente que Simão pertencesse ao movimento político dos zelotes — grupo judaico que mais tarde se envolveria na revolta contra Roma —, mas sugere que ele era conhecido por um fervor religioso intenso, ligado à identidade judaica, à Lei e a Deus.

Sobre Judas, há uma particularidade: Mateus e Marcos o chamam de “Tadeu”, enquanto Lucas o identifica como “Judas, filho de Tiago”. A origem do nome “Tadeu” é incerta — pode vir de uma palavra aramaica relacionada a “peito” (no sentido de “magnânimo”) ou ser uma forma abreviada de um nome grego como Teodoro. O próprio Evangelho de João atribui a ele a única pergunta registrada desse apóstolo: por que Jesus se manifestaria aos discípulos e não ao mundo inteiro (João 14,22-23). A resposta de Jesus — quem o ama guarda sua palavra, e o Pai fará morada em quem assim vive — é, segundo Bento XVI, um convite a viver a fé com o coração aberto.

É importante não confundir Judas Tadeu com Judas Iscariotes, o apóstolo que entregou Jesus. Essa distinção, insistida pelos próprios Evangelhos, é também a chave para entender por que a devoção a Judas Tadeu demorou séculos para florescer.

Por que ele é chamado de “santo das causas impossíveis”

A Igreja não possui um documento oficial que explique a origem exata do título popular de “santo das causas impossíveis” atribuído a Judas Tadeu — trata-se de uma tradição de piedade popular, não de uma definição doutrinária. A explicação mais repetida por historiadores da devoção é justamente a coincidência de nomes com Judas Iscariotes: por medo de invocar, por engano, o apóstolo traidor, os cristãos teriam evitado durante séculos pedir a intercessão de Judas Tadeu, tornando-o um dos santos menos procurados da tradição católica.

Com o tempo, quem recorria a ele — geralmente em situações de desespero, quando outros caminhos pareciam esgotados — passou a relatar graças alcançadas. A repetição desses relatos consolidou, ao longo de gerações, a fama do apóstolo como intercessor eficaz justamente nas causas mais difíceis. É uma tradição de fé popular, sustentada pela experiência religiosa de muitos fiéis, mas que não corresponde a um reconhecimento doutrinário formal da Igreja — distinção que vale lembrar sempre que esse tipo de devoção é tratado como fato comprovado.

Uma devoção que atravessou continentes até chegar ao Brasil

A devoção a Judas Tadeu ganhou força na Europa a partir do século XIV, impulsionada pela santa sueca Brígida, que teria relatado visões relacionadas ao apóstolo. De lá, a prática se espalhou por Portugal e, com a colonização, chegou ao Brasil. No território brasileiro, porém, a maior parte das paróquias dedicadas a ele — hoje mais de cem — foi fundada no século XX, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, com a chegada de padres estrangeiros que trouxeram essa devoção específica.

No processo de encontro entre catolicismo popular e religiões de matriz africana, Judas Tadeu passou a ser associado, por parte dos praticantes de religiões como a Umbanda, à entidade Xangô — um fenômeno de sincretismo religioso amplamente descrito por historiadores da religiosidade brasileira, e que ilustra como devoções católicas populares também dialogam, na prática dos fiéis, com outras tradições espirituais do país.

O santuário do Rio de Janeiro e a tradição no Flamengo

O principal centro de devoção a São Judas Tadeu no Brasil fica no Rio de Janeiro, na Rua Cosme Velho. A paróquia foi criada em 1945, desmembrada da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Largo do Machado, e funcionou inicialmente em uma residência e depois em uma capela improvisada. A pedra fundamental do templo atual foi benta em 1952, após campanhas de arrecadação — incluindo a venda de “tijolinhos de papel” simbólicos — lideradas pelo padre Luiz Gonzaga de Campos Góes. A igreja foi inaugurada em dezembro de 1968 e elevada a santuário em 1985; o conjunto recebeu tombamento municipal em 2005 e recebe grande número de visitantes, especialmente em outubro.

É também a esse padre que a tradição local atribui a origem da relação entre o apóstolo e o Clube de Regatas Flamengo, de quem Judas Tadeu é considerado patrono por torcedores e pela própria instituição esportiva. Segundo o relato transmitido por historiadores da devoção carioca, o padre Góes, torcedor do time, teria celebrado uma missa em 1953 no antigo campo da Gávea e pedido aos jogadores que acendessem velas ao santo — episódio que a tradição voluntariamente aproxima dos títulos conquistados pelo clube naqueles anos, embora não exista um registro documental que comprove relação de causa e efeito entre o gesto e os resultados esportivos.

Fé documentada e fé vivida

A festa de 28 de outubro reúne, assim, duas camadas bem diferentes de uma mesma tradição católica. De um lado, o testemunho bíblico sóbrio sobre dois dos Doze Apóstolos, lembrados pela Igreja como fundamento de sua missão de anunciar o Evangelho a todos os povos. De outro, uma devoção popular robusta, que cresceu a partir da experiência de fiéis em situações-limite e se tornou, no Brasil, um fenômeno de piedade que atravessa paróquias, santuários e até a torcida de um clube de futebol. Reconhecer a origem e os limites de cada uma dessas camadas — o que é ensinamento da Igreja e o que é tradição e devoção popular — não diminui a fé de quem recorre ao apóstolo das causas impossíveis; ajuda, antes, a vivê-la com mais clareza.

Fontes e referências

  • Papa Bento XVI, Audiência Geral sobre os Apóstolos Simão, o Cananeu, e Judas, o Tadeu, 11 de outubro de 2006 — vatican.va
  • Opus Dei, “Simão o Cananeu e Judas Tadeu (Bento XVI)” — opusdei.org
  • Opus Dei, Evangelho do dia 28 de outubro — opusdei.org
  • Diário do Rio, William Bittar, “A devoção e o santuário de São Judas Tadeu no Rio de Janeiro” — diariodorio.com
  • Estado de Minas, “Por que São Judas é o santo das causas impossíveis? Entenda a origem” — em.com.br

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