Cem anos depois, a Igreja na China ainda divide o Vaticano

Em 28 de outubro de 1926, o papa Pio XI consagrou em Roma os primeiros seis bispos nativos chineses da história — um gesto pensado para enraizar a Igreja na China além da figura dos missionários estrangeiros. Cem anos depois, no mesmo dia, a relação entre a Santa Sé e a China continua sendo uma das mais delicadas de toda a diplomacia vaticana: marcada por um acordo inédito sobre a nomeação de bispos, por violações, por bispos desaparecidos e por um debate que divide a própria Igreja sobre a melhor forma de proteger os católicos chineses. Entender esse século de história ajuda a explicar por que o tema continua, hoje, tão delicado — e por que a Igreja evita tratá-lo com respostas simples.

Um século de uma relação complicada

Depois da revolução comunista de 1949, a China cortou relações diplomáticas com a Santa Sé em 1951, expulsando o representante papal. O regime criou a Associação Patriótica Católica Chinesa para administrar a Igreja sem vínculo com Roma, e a perseguição religiosa se intensificou durante a Revolução Cultural (1966-1976), quando templos foram fechados e fiéis presos. Desde então, a Santa Sé manteve relações diplomáticas oficiais com Taiwan, e não com Pequim — uma das poucas sedes diplomáticas no mundo a fazer essa escolha, hoje também fonte de tensão, já que o governo taiwanês acompanha de perto qualquer aproximação entre o Vaticano e a China continental.

O acordo de 2018 e suas renovações

Em setembro de 2018, a Santa Sé e Pequim assinaram um Acordo Provisório sobre a nomeação de bispos — o primeiro desse tipo desde a ruptura de 1951. O texto nunca foi divulgado publicamente, mas, segundo relatos oficiais, o mecanismo prevê que o governo chinês proponha ou aprove nomes de candidatos a bispo, cabendo ao papa a palavra final sobre aceitá-los ou rejeitá-los. O acordo foi renovado por dois anos em 2020 e 2022, e por quatro anos em outubro de 2024, com validade estimada até 2028. Em nota, a Santa Sé afirmou estar “determinada a continuar o diálogo respeitoso e construtivo” com a China; Pequim, por sua vez, falou em “consultas amistosas” e avaliação positiva dos resultados.

Uma paz instável

Na prática, o acordo nem sempre foi respeitado. Em 2022, as autoridades chinesas ordenaram, sem aprovação papal, John Peng Weizhao como bispo de uma diocese em Jiangxi não reconhecida por Roma. Em 2023, Pequim transferiu Joseph Shen Bin para a arquidiocese de Xangai sem consulta prévia — Roma só reconheceu o fato depois. O episódio mais delicado aconteceu em abril de 2025, durante a sé vacante aberta pela morte do papa Francisco: a China nomeou unilateralmente bispos para duas dioceses, entre elas Xinxiang, que já tinha um bispo reconhecido pelo Vaticano. Analistas leram o episódio como um teste à reação do papa que viesse a ser eleito. O governo de Taiwan, que observa de perto esse equilíbrio, chegou a declarar publicamente que a China vinha violando o acordo sobre bispos.

Leão XIV e a China: continuidade com cautela

Leão XIV, eleito em maio de 2025, deu sinais de manter a linha de diálogo de seu antecessor. Em 30 de julho de 2026, ordenou dois novos bispos sob o acordo — Francis Xavier Duan Yongkun, bispo coadjutor de Bameng, e Joseph Chang Yanfeng, bispo de Chifeng —, buscando preencher sés vacantes e reforçar a comunhão direta dos bispos chineses com Roma. Em maio de 2025, o cardeal Stephen Chow, bispo de Hong Kong, revelou em uma homilia que o papa lhe confidenciara o desejo de fazer uma visita pastoral à China — um relato do próprio cardeal sobre uma conversa privada, não uma declaração pública do papa.

Esse mesmo cuidado diplomático, porém, tem um preço. Em março de 2026, ao ser perguntado sobre a condenação a 20 anos de prisão do empresário e editor católico Jimmy Lai, símbolo da imprensa pró-democracia de Hong Kong, Leão XIV respondeu apenas: “não posso comentar”, limitando-se a pedir oração por “menos ódio e mais paz”. O episódio reabriu uma pergunta que acompanha o papado: até que ponto o silêncio sobre casos que afetam diretamente o governo chinês é prudência diplomática para preservar o diálogo sobre bispos, e até que ponto se torna um limite real à voz pública da Igreja diante de abusos.

O debate dentro da própria Igreja

A Santa Sé defende o acordo como um passo pastoral, não político. Em discurso de 2020 que segue sendo citado como referência da posição oficial, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado vaticano, descreveu o acordo como “apenas um ponto de partida”, tratando “exclusivamente da nomeação de bispos” com objetivo “primariamente eclesial e pastoral” — garantir que os católicos chineses tenham bispos em comunhão com Roma, mesmo que isso exija conviver com um Estado que não reconhece plena liberdade religiosa.

Do outro lado, o cardeal Joseph Zen, bispo emérito de Hong Kong, de 94 anos, tornou-se o crítico mais conhecido do acordo, afirmando publicamente que ele legitimaria uma estrutura cismática dentro da Igreja chinesa e chegando a acusar Parolin, em declarações duras, de distorcer deliberadamente os fatos sobre o tema. Zen também enfrentou a Justiça de Hong Kong: foi condenado em 2022 por administrar um fundo não registrado que ajudava manifestantes pró-democracia, pagou multa e teve o passaporte retido, com o processo seguindo em instâncias superiores até 2026. A organização Human Rights Watch pediu, em maio de 2025, que a Santa Sé revisasse os termos do acordo. Não há, aqui, equivalência fácil entre as duas posições — mas também não há consenso dentro da Igreja sobre qual caminho protege melhor, de fato, os católicos chineses.

Quantos católicos, e quantos ainda na clandestinidade

A China tem hoje cerca de 12 milhões de católicos, segundo estimativas recorrentes desde os anos 2000. Mas, das 98 dioceses do país, apenas 25 têm atualmente um bispo à frente, segundo o pesquisador Michel Chambon, citado pela agência suíça de notícias Swissinfo — um retrato de quanto a “normalização” da hierarquia ainda está incompleta. Não existe um número oficial confiável de quantos católicos permanecem numa Igreja “clandestina”, não registrada pelo Estado, em vez da Associação Patriótica; é um dado que a própria pesquisa acadêmica reconhece como incerto.

O que é mais documentado são os casos individuais. O bispo Peter Shao Zhumin, de Wenzhou, foi detido repetidas vezes nos últimos anos, inclusive em 2024, por celebrar uma missa de abertura do Jubileu considerada “ilegal” pelas autoridades — a Santa Sé chegou a expressar “grave preocupação” com seu paradeiro. Já o bispo Su Zhimin está desaparecido desde os anos 1990, sem informação confirmada sobre seu destino há mais de duas décadas, segundo organizações de monitoramento que acompanham o caso há anos.

Além dos católicos: a presença cristã mais ampla

Os católicos são minoria entre os cristãos chineses: segundo o Pew Research Center, cerca de 90% dos cristãos do país são protestantes, muitos ligados a “igrejas domésticas” não registradas pelo Estado. As estimativas sobre o tamanho da população cristã total variam enormemente, de cerca de 1% a mais de 7% da população adulta, dependendo da fonte — um reflexo de como é difícil medir um fenômeno que, em boa parte, ocorre fora dos registros oficiais. O próprio Pew nota que o crescimento do cristianismo na China, acelerado nas décadas de 1980 e 1990, parece estagnado desde cerca de 2010.

Relatórios recentes da Comissão dos EUA sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF) documentam prisões de líderes protestantes em 2024 e 2025: a pastora Yang Rongli foi condenada a 15 anos de prisão em junho de 2025; o pastor Wan Changchun, a 5 anos, em março do mesmo ano; e, em outubro de 2025, o líder da Igreja Zion, Ezra Jin, foi detido junto com cerca de 30 outros líderes religiosos. Com base nesse quadro, a USCIRF recomenda que a China continue na lista de “Países de Particular Preocupação” em matéria de liberdade religiosa.

Diálogo ou silêncio? Uma pergunta sem resposta fácil

Cem anos depois da consagração dos primeiros bispos chineses por Pio XI, a Igreja na China segue dividida entre a via diplomática escolhida pelo Vaticano — que aposta no diálogo mesmo lento e imperfeito como forma de garantir bispos em comunhão com Roma — e o testemunho de quem segue preso, desaparecido ou impedido de rezar livremente, dos dois lados da fronteira entre católicos e protestantes. Não cabe a este espaço decidir qual caminho é o certo; cabe, sim, registrar que a própria Igreja ainda debate essa pergunta internamente, com cardeais, bispos e fiéis chineses vivendo, de formas diferentes, as consequências de cada escolha.

Fontes e referências

Deixe um comentário