“Amai-vos uns aos outros”: Fé, Diversidade e o Desafio do Preconceito

Neste 17 de maio, Dia Internacional contra a Homofobia, a Igreja e o mundo são chamados à escuta. Escutar a dor de tantos que, em nome da fé, foram excluídos. Escutar o grito daqueles que não cabem nos moldes normativos que a sociedade — e, muitas vezes, as instituições religiosas — impõem. E escutar, sobretudo, o Evangelho, que não condena, mas convida: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 15,12).

A violência do preconceito e o silêncio das instituições

A homofobia não é apenas um ato isolado de rejeição. Ela se estrutura como sistema de exclusão, marginalização e violência — psicológica, social, física e espiritual. No Brasil, país com um dos maiores índices de violência contra pessoas LGBTQIA+, a urgência do combate à homofobia é também um chamado evangélico à justiça e à dignidade da pessoa humana.

Infelizmente, a religião nem sempre foi refúgio. Muitas comunidades cristãs foram, e ainda são, espaços de dor para quem vive fora dos padrões de gênero e orientação sexual hegemônicos. A tradição cristã, marcada por momentos luminosos de acolhimento, também carrega a sombra da exclusão — e é precisamente aí que a fé precisa se purificar.

Jesus é os que vivem à margem

Jesus rompeu barreiras. Tocou leprosos, acolheu pecadoras, dialogou com samaritanos, curou em dia de sábado, escandalizou os religiosos de seu tempo. Ele não construiu sua missão a partir da pureza ritual, mas da compaixão. O Reino que Ele anuncia é para todos — especialmente para os marginalizados.

A Bíblia, ao longo de sua complexa teia de textos e contextos, não fala explicitamente da diversidade de gênero como compreendemos hoje. Mas fala de pessoas. Fala de exclusões. E fala da possibilidade de Deus agir onde menos se espera.

O eunuco etíope, por exemplo, em Atos 8, era um estrangeiro, negro e sexualmente não normativo. Ele lê Isaías em sua carruagem e é acolhido na fé por Filipe. E é batizado. Sem testes. Sem perguntas sobre sua identidade. Apenas fé e acolhimento.

A igreja Católico e os caminhos do diálogo

A Igreja tem caminhado — ainda que lentamente — rumo a uma postura mais acolhedora. O Catecismo da Igreja Católica afirma:

“Devem ser acolhidas com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a elas, todo sinal de discriminação injusta.” (CIC 2358)

O Papa Francisco, desde o início de seu pontificado, reforça a necessidade de acolher as pessoas LGBTQIA+ com carinho e inclusão. Em sua famosa resposta “Quem sou eu para julgar?”, em 2013, referindo-se a pessoas homossexuais que buscam a Deus, Francisco abriu um novo tom no discurso da Igreja.

Mais recentemente, em 2023, o documento Fiducia Supplicans, do Dicastério para a Doutrina da Fé, autorizou bênçãos pastorais a casais em situação irregular, incluindo uniões homoafetivas — gesto de cuidado pastoral, ainda que sem equivalência ao matrimônio sacramental.

Esses movimentos não anulam as dores causadas, mas apontam um horizonte: o da dignidade, da escuta e da inclusão.

Fé que acolhe, fé que liberta

A verdadeira fé não condena o outro. A verdadeira fé escuta. E transforma. Jesus não rejeita ninguém por sua identidade. O julgamento pertence a Deus. A nós, cabe o amor.

Diversidade não é ameaça ao Evangelho. É expressão da riqueza da criação. A pluralidade dos corpos, das histórias e das experiências humanas pode ser, sim, espaço de manifestação da graça.

Neste Dia Internacional contra a Homofobia, que a Igreja seja espaço de reconciliação, não de rejeição. Que os cristãos sejam ponte, não muro. E que todos, sem exceção, possam se reconhecer no amor de Deus — amor que não exclui, não mede, não rotula. Amor que acolhe.

Por Marquione Ban

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