Setembro chegou e, com ele, uma das tradições mais antigas da Igreja Católica no Brasil: o Mês da Bíblia. Desde os anos 1970, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reserva o nono mês do calendário para convidar comunidades, famílias e paróquias a aprofundar o conhecimento da Palavra de Deus a partir de um livro bíblico específico. Em 2026, a escolha recaiu sobre o Livro de Daniel, com o lema oficial “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). A celebração já foi aberta oficialmente durante a II Romaria Nacional de Catequistas, em Aparecida (SP), que reuniu cerca de 4.700 participantes. Mas por que Daniel, e o que esse livro do Antigo Testamento tem a dizer aos desafios do presente?
O que é o Mês da Bíblia
O Mês da Bíblia é uma opção pastoral da Igreja no Brasil que, ao longo do ano litúrgico, dedica meses específicos a determinadas devoções e temas — maio é consagrado a Nossa Senhora, junho ao Sagrado Coração de Jesus e, desde a década de 1970, setembro é reservado à Sagrada Escritura. A tradição já é longeva: em 2021, a Igreja no Brasil celebrou o cinquentenário do Mês da Bíblia, reafirmando o compromisso de colocar a Palavra de Deus “em primeiro lugar na vida da Igreja, na vida da família, das comunidades de fé e de cada pessoa”, segundo a própria CNBB.
Na prática, cada edição do Mês da Bíblia gira em torno do estudo aprofundado de um livro bíblico, com materiais de apoio produzidos pela Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB e publicados pelas Edições CNBB. Paróquias, círculos bíblicos, pastorais e famílias são convidados a ouvir, ler, estudar e rezar o texto escolhido ao longo do mês.
O Livro de Daniel: contexto histórico e literário
O Livro de Daniel ocupa um lugar peculiar no Antigo Testamento. Sua narrativa está ambientada no século VI a.C., durante o exílio do povo de Israel na Babilônia, sob os reinados de Nabucodonosor e de seus sucessores — é desse período que vêm os episódios mais conhecidos do livro, como os três jovens lançados na fornalha ardente e Daniel na cova dos leões. Mas, segundo estudiosos bíblicos e os próprios materiais de formação da Igreja, o texto teria alcançado sua forma final por volta do século II a.C., no contexto da perseguição promovida pelo império selêucida de Antíoco IV Epifânio, que tentava impor a cultura helenística ao povo judeu — pano de fundo da revolta dos Macabeus.
Essa origem explica o gênero literário predominante nos capítulos finais: a literatura apocalíptica, marcada por visões simbólicas (impérios representados por feras, por exemplo) que buscavam sustentar a esperança de um povo perseguido, sem se referir abertamente aos perseguidores do momento. Vale notar, ainda, uma diferença entre tradições cristãs: a versão católica do Livro de Daniel inclui seções deuterocanônicas — o Cântico dos Três Jovens, a história de Susana e a de Bel e o Dragão — que não constam das edições protestantes da Bíblia, por não integrarem o cânon hebraico usado como referência pela Reforma.
O lema de 2026 e o convite da CNBB
O lema escolhido para o Mês da Bíblia 2026 — “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14) — resume a mensagem central que a Igreja destaca no livro: impérios e poderes humanos passam, mas o Reino de Deus permanece. O texto-base produzido pelas Edições CNBB, destinado a padres, diáconos, catequistas, lideranças pastorais e grupos bíblicos de todo o país, propõe “aprofundamento bíblico, contextualização histórica e pistas pastorais” para ajudar as comunidades a compreender a fidelidade a Deus em tempos de desafio, fortalecendo a esperança e a perseverança.
Para preparar animadores bíblicos em todo o Brasil, a Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética promoveu, a partir de maio de 2026, um seminário on-line em três encontros, disponibilizado em vídeo para dioceses, paróquias e comunidades que organizam atividades formativas ao longo de setembro.
Abertura oficial em Aparecida
O Mês da Bíblia 2026 foi aberto oficialmente em 30 de agosto, no Santuário Nacional de Aparecida (SP), durante o Dia do Catequista, que marcou também o encerramento da II Romaria Nacional de Catequistas. O evento reuniu cerca de 4.700 catequistas de diferentes regiões do país, sob o tema “Transmitir a fé hoje” e o mote “O que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos” (1Jo 1,3).
Dom Leomar Brustolin, presidente da Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB, conduziu a reflexão sobre o Livro de Daniel diante dos catequistas reunidos. “A fé não significa ausência de perigo, mas pede que esses perigos não destruam e apaguem a vida. As feras não têm a última palavra. A fé sempre abre a janela”, afirmou o bispo, segundo registro da própria CNBB.
Como viver o Mês da Bíblia
Ao longo de setembro, é comum que paróquias e comunidades organizem círculos bíblicos, rodas de leitura orante (lectio divina) e encontros de formação a partir do texto-base da CNBB. Outras organizações ligadas à animação bíblica no Brasil também produzem material complementar para o período — é o caso do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), que lançou círculos bíblicos próprios sobre Daniel, com leitura voltada à resistência popular e à esperança em tempos de pressão social. Vale destacar que se trata de uma leitura pastoral complementar, distinta do texto-base oficial da CNBB, e ilustra como a animação bíblica católica no Brasil comporta diferentes ênfases dentro de uma mesma tradição de fé.
Independentemente do método escolhido, o convite de fundo permanece o mesmo: tirar um tempo, em família ou em comunidade, para ouvir um texto que atravessou séculos de perseguição sem perder a certeza de que os impérios passam — e o que vem de Deus, não.
Conclusão
O Livro de Daniel não foi escrito para satisfazer curiosidade histórica, mas para sustentar a fé de um povo que via seu mundo desmoronar. Ao escolhê-lo para o Mês da Bíblia de 2026, a CNBB propõe menos uma lição sobre o passado do que uma pergunta para o presente: diante das “feras” que cada pessoa enfrenta hoje — sejam elas medos, incertezas ou pressões do seu tempo —, o que muda ao lembrar que elas não têm a palavra final?
Fontes e referências
- CNBB — Dia do Catequista marca encerramento da II Romaria Nacional em Aparecida e abertura do Mês da Bíblia
- CNBB — O Mês da Bíblia
- CNBB — Setembro, o Mês da Bíblia
- Edições CNBB — Mês da Bíblia 2026: Livro de Daniel (Texto-base)
- Diocese de Erexim — Mês da Bíblia: noite de formação sobre o Livro de Daniel
- CEBI — Mês da Bíblia 2026: Desesperar Jamais! Círculos Bíblicos sobre o Livro de Daniel