Papa Leão XIV visita França e discursa na Unesco em Paris

O papa Leão XIV iniciou nesta sexta-feira, 25 de setembro, uma viagem apostólica de quatro dias a França, a primeira visita de um pontífice ao país em 18 anos. Recebido no Aeroporto de Orly e no Palácio do Eliseu pelo presidente Emmanuel Macron, o papa seguiu à tarde para a sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris, onde discursou à comunidade internacional sobre paz, dignidade humana e os desafios da inteligência artificial. A viagem, que segue até segunda-feira (28), passa ainda por Lourdes e por Metz.

Um retorno simbólico à Unesco

A passagem de Leão XIV pela sede da Unesco ocorre 46 anos depois do histórico discurso do papa João Paulo II ao organismo, em 1980. O convite partiu do diretor-geral da instituição, Khaled El-Enany, e a diretora-geral adjunta, Åsa Regnér, classificou a visita como oportuna diante dos desafios globais atuais — conflitos armados, desigualdades, mudanças climáticas e o avanço acelerado da inteligência artificial.

Durante o voo rumo a Paris, o papa disse a jornalistas que seu desejo era “proclamar a paz, a paz de Cristo, em todo o mundo”, frase que o jornal francês Le Monde classificou como particularmente significativa no contexto internacional atual.

Inteligência artificial e instituições internacionais

Segundo o Vaticano, o discurso na Unesco deveria retomar temas centrais da encíclica Magnifica Humanitas, publicada por Leão XIV em maio deste ano e dedicada à relação entre a humanidade e a tecnologia digital. A expectativa, segundo análise da Agência Ecclesia, era de que o papa defendesse a necessidade de “confiar” nas instituições internacionais multilaterais e “investir” nelas, para que as relações entre os países não fiquem “ao arbítrio da lei do mais forte”.

No mesmo dia, a Unesco também sediou o Fórum da Juventude na Era da IA, inspirado na encíclica papal, reunindo jovens de diferentes países para refletir sobre os desafios éticos da inteligência artificial na educação e na cultura.

O que a Igreja diz sobre o tema

A ênfase na dignidade humana diante da tecnologia não é nova no magistério católico: em fevereiro de 2020, a Pontifícia Academia para a Vida lançou, em parceria com empresas de tecnologia, a “Rome Call for AI Ethics”, documento que defende princípios como transparência, inclusão e responsabilidade no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. A encíclica Magnifica Humanitas se inscreve nessa linha, insistindo que a tecnologia deve estar a serviço da pessoa humana, e não o contrário.

Itinerário: de Paris a Lourdes e Metz

Depois da Unesco, a agenda do papa em Paris incluiu ainda as Vésperas na Catedral de Notre-Dame com bispos e sacerdotes franceses e uma vigília de oração com jovens no Estádio de França. No sábado (26), Leão XIV visita a Casa Bakhita, projeto de acolhimento social, celebra missa na Place de la Concorde e segue para o santuário mariano de Lourdes, onde permanece até domingo (27) para encontros com bispos franceses, com agentes de pastoral social e momentos de oração na Gruta de Massabielle.

Na segunda-feira (28), o papa encerra a viagem em Metz, onde participa de um encontro inter-religioso e discursa sobre as “raízes da Europa pela paz”, em referência ao legado de Robert Schuman, um dos fundadores do projeto de integração europeia. Segundo o Vaticano, o presidente Macron acompanhará esse pronunciamento, mas — em respeito à laicidade do Estado francês — não participará de nenhuma das celebrações religiosas do papa durante a viagem.

Por que essa viagem importa

Para além da agenda diplomática, o Vaticano descreveu a visita como um gesto dirigido a “uma nação que se questiona sobre si mesma, sua sociedade, a humanidade e a vida”, em um país marcado por forte secularização, mas que registrou, segundo dados citados pela Vatican News, mais de 13 mil catecúmenos batizados na Páscoa deste ano — sinal, para a Igreja local, de uma comunidade em crescimento. Ao unir escalas em Paris, Lourdes e Metz, a viagem busca articular três dimensões do catolicismo contemporâneo: o diálogo com as instituições internacionais, a espiritualidade popular mariana e o debate sobre os rumos da Europa.

Fontes e referências

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