Na audiência geral de 23 de setembro, o papa Leão XIV afirmou que “o ser humano e Deus não são rivais” e defendeu que o progresso técnico e científico só é verdadeiramente humano quando “animado e orientado pela caridade”. A declaração foi feita na Praça de São Pedro, no Vaticano, diante de cerca de 25 mil fiéis, durante mais uma etapa do ciclo de catequeses sobre os documentos do Concílio Vaticano II.
A reflexão do pontífice teve como base o capítulo III da constituição pastoral Gaudium et Spes (“A Igreja no mundo atual”), dedicado ao “sentido da atividade humana no mundo” (números 33 a 39 do documento). Promulgada em 7 de dezembro de 1965 pelo papa Paulo VI, ao final do Concílio Vaticano II, a Gaudium et Spes é um dos textos conciliares mais citados quando o tema é a relação entre fé cristã e vida no mundo contemporâneo — trabalho, ciência, cultura e progresso social.
O que disse o Papa na catequese
Segundo o resumo divulgado pelo Vatican News, Leão XIV retomou o ensinamento conciliar de que “a atividade humana individual e coletiva… corresponde à vontade de Deus” (GS 34), reafirmando que o trabalho cotidiano e o esforço humano por transformar o mundo não são estranhos à fé, mas parte do plano de Deus para a criação.
O papa insistiu que “criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano é um agente de progresso” e criticou o que chamou de “humanismo ateu”, corrente de pensamento que apresenta a busca humana por autonomia e desenvolvimento como algo incompatível com a existência de Deus. Para Leão XIV, essa é uma falsa oposição: “o ser humano e Deus não são rivais”.
Citando o texto conciliar, o pontífice lembrou que “as vitórias do gênero humano manifestam a grandeza de Deus e são fruto do seu desígnio inefável” (cf. GS 34) e que o verdadeiro progresso, quando purificado do pecado e das distorções egoístas, “interessa muito ao reino de Deus” (cf. GS 39). Segundo o papa, esse progresso será um dia “purificado de qualquer mancha, iluminado e transfigurado”.
Caridade como critério do progresso
O ponto central da catequese, de acordo com a síntese oficial, foi a advertência de que ciência e técnica não bastam por si mesmas: o progresso só se torna “autêntico” quando orientado pela caridade cristã e colocado a serviço da dignidade humana, “especialmente dos desfavorecidos”. Não se trata, portanto, de recusar o desenvolvimento científico ou tecnológico, mas de submetê-lo a um critério ético e espiritual mais amplo — a caridade — capaz de evitar que o progresso se converta em instrumento de exclusão ou de novas formas de desigualdade.
Leão XIV encerrou a reflexão convidando os fiéis a “partilhar o pão do conhecimento e do saber-fazer, para que cada homem e cada povo possa desenvolver o seu potencial” — uma alusão direta ao apelo da Gaudium et Spes por uma distribuição mais justa dos frutos do progresso entre nações e pessoas.
Por que este ensinamento importa
A audiência geral de quarta-feira integra um ciclo catequético mais amplo que Leão XIV vem conduzindo ao longo de 2026, percorrendo os principais documentos do Concílio Vaticano II (1962-1965) para um público que, seis décadas depois, muitas vezes desconhece o conteúdo desses textos fundamentais para a vida da Igreja contemporânea. Ao insistir que fé e progresso humano não se opõem, o papa retoma um dos eixos mais conhecidos do magistério católico sobre ciência, tecnologia e desenvolvimento — tema que ganha nova urgência em um tempo marcado por debates sobre inteligência artificial, crise climática e desigualdade global.
Não houve, segundo as fontes consultadas, anúncios adicionais ou declarações sobre temas de atualidade política nesta audiência: o conteúdo divulgado concentrou-se integralmente na catequese sobre a Gaudium et Spes.
Conclusão
Ao reafirmar que “o ser humano e Deus não são rivais”, Leão XIV retoma um princípio central do Concílio Vaticano II: o de que a fé cristã não pede recuo diante do mundo, mas engajamento responsável nele. A catequese desta semana reforça um convite que atravessa todo o pontificado — o de olhar para o desenvolvimento científico e tecnológico não como ameaça, mas como campo onde a caridade cristã pode e deve se fazer presente.
Fontes e referências
- Vatican News — “Papa: a caridade deve orientar o progresso. Deus e o homem não são rivais” (23/09/2026)
- Vatican.va — Audiência Geral de 23 de setembro de 2026, Papa Leão XIV (texto oficial da catequese)
- Concílio Vaticano II — Constituição Pastoral Gaudium et Spes (7 de dezembro de 1965), texto integral