O Lula ganhou. E agora cristão? A Igreja ensina sobre política após a eleição

No domingo, 25 de outubro, o Brasil decidiu no segundo turno: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com Geraldo Alckmin (PSB) na vice-presidência, foi reeleito presidente da República com 51,77% dos votos válidos, contra 48,23% de Flávio Bolsonaro (PL), que tinha Alfredo Gaspar (PL) como vice. Passada a disputa, fica uma pergunta que atravessa toda eleição em uma sociedade dividida: o que a fé católica tem a dizer sobre como agir depois do resultado — tanto para quem venceu quanto para quem perdeu? Nos últimos dias, multiplicaram-se nas redes sociais falas de eleitores derrotados afirmando que “Deus os abandonou”. A Igreja, no entanto, ensina algo mais sereno sobre autoridade política, providência divina e o papel do cristão depois das urnas.

O que aconteceu

O segundo turno de 2026 confirmou a reeleição de Lula, que também governou o país entre 2003 e 2010 e novamente desde 2023. Segundo a apuração oficial, o resultado foi apertado nos estados mais populosos: Flávio Bolsonaro venceu em São Paulo, por exemplo, enquanto Lula teve maioria na capital paulista e no conjunto do país. A abstenção e os votos brancos e nulos somaram parcela relevante do eleitorado, reflexo de uma eleição tensa, marcada por embates que, em alguns momentos, envolveram também a relação entre candidatos e lideranças religiosas — episódios que não cabem a este espaço julgar, mas que ajudam a explicar por que tantos católicos chegaram ao fim do pleito emocionalmente exaustos, de ambos os lados.

Antes do segundo turno, em 21 de outubro, o Conselho Permanente da CNBB divulgou nota pedindo “participação consciente dos eleitores” e “respeito aos resultados das urnas”, reforçando a defesa do Estado Democrático de Direito. O texto associou democracia a direitos fundamentais como trabalho, moradia, saúde e educação, e terminou pedindo a intercessão de Nossa Senhora Aparecida para que os brasileiros construam “uma convivência fundamentada na verdade, na fraternidade e na paz”.

O que a Igreja ensina sobre a autoridade política

A base doutrinária para pensar o tema está no Catecismo da Igreja Católica, nos parágrafos 1897 a 1904. O texto afirma que toda sociedade humana precisa de pessoas investidas de autoridade legítima para preservar suas instituições e trabalhar pelo bem comum (n. 1897-1898), e que essa autoridade, quando exercida de acordo com a ordem moral, “vem de Deus”, citando a carta de São Paulo aos Romanos: “Que cada um esteja sujeito às autoridades constituídas” (Rm 13,1).

Esse mesmo Catecismo, porém, é claro quanto aos limites: “a escolha do regime político e a designação dos governantes são deixadas à livre decisão dos cidadãos” (n. 1901). Ou seja, a legitimidade de quem governa nasce do processo eleitoral livre, não de uma intervenção direta e visível de Deus a favor de um nome ou de uma sigla. E a obediência devida à autoridade tem limite moral: uma lei ou uma ordem que contrarie a dignidade humana e a ordem moral “não obriga em consciência” (n. 1903) — o que preserva o direito e, em certos casos, o dever da crítica e da oposição legítima, sempre pelos meios lícitos.

Documentos preparados por organismos da própria CNBB para o pleito de 2026, como o subsídio “Reflexões para as Eleições 2026”, da Regional Sul 1, reforçam esse quadro: a autoridade política deve se concretizar “por meio da verdade, da justiça e da solidariedade”, servindo ao bem comum sem substituir a iniciativa das pessoas, e deve respeitar valores que “não dependem de maiorias circunstanciais”. O mesmo documento é incisivo contra a polarização: “toda a polarização e opiniões radicais são a negação do bem comum”, afirma, propondo a amizade social como caminho de convivência política.

“Deus nos abandonou”? O que a fé diz sobre vitória e derrota

É aqui que entra a pergunta mais sensível: alguém que perdeu uma eleição foi abandonado por Deus? A teologia católica responde que não, e por uma razão precisa. Como o próprio Catecismo registra, a escolha dos governantes é fruto da “livre decisão dos cidadãos” — um processo humano, histórico e político, não um oráculo divino. Ler o resultado de uma eleição como prova de que Deus “escolheu” um lado ou “abandonou” o outro é atribuir à providência divina algo que pertence, antes de tudo, à liberdade humana e ao jogo democrático.

A tradição espiritual cristã também adverte contra essa tentação em ambas as direções: tanto o vencedor que lê sua vitória como endosso sobrenatural de tudo o que fará quanto o derrotado que lê sua derrota como sinal de rejeição por Deus caem no mesmo erro — o de transformar a política em religião, ou a religião em instrumento da política. A Escritura convida a outra atitude diante da autoridade civil, qualquer que seja o nome de quem a ocupa: “Peço, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que exercem autoridade” (1Tm 2,1-2). A oração pelos governantes — inclusive por aqueles em quem não se votou — é mandamento explícito, não gesto de resignação.

Isso não significa indiferença sobre o que o resultado de uma eleição pode significar para a vida concreta das pessoas — o medo, a esperança, a ansiedade de quem perdeu são sentimentos reais e legítimos, que merecem acolhida, não correção apressada. Mas é diferente de afirmar que Deus se ausentou de alguém por causa de uma urna. Para a fé católica, a providência de Deus não se mede pelo resultado de um pleito, e seus “designos”, como diz a sabedoria popular, seguem um horizonte que a Escritura chama de insondável: “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos são os meus caminhos” (Is 55,8).

O que fazer agora: cidadania depois das urnas

Encerrada a eleição, a Igreja não propõe um “manual” detalhado de conduta pós-eleitoral, mas os princípios de sua doutrina social permitem apontar alguns caminhos concretos, válidos independentemente de quem tenha vencido:

Primeiro, rezar pelo presidente eleito e por todos os que ocuparão cargos públicos, como pede a Escritura — uma oração que não é sinônimo de concordância com cada decisão de governo, mas reconhecimento de que a autoridade, para servir ao bem comum, precisa de discernimento e sabedoria que a oração alcança.

Segundo, aceitar o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral como expressão legítima da vontade popular, nos termos reforçados pela própria CNBB antes do pleito — o que não significa deixar de fiscalizar, criticar e cobrar o governo eleito sempre que necessário, pelos meios institucionais e pacíficos, algo que o Catecismo preserva como direito.

Terceiro, evitar tanto a euforia triunfalista de quem venceu quanto o desespero de quem perdeu, lembrando que nenhuma eleição substitui o horizonte da fé nem esgota a ação de Deus na história.

Quarto, reconstruir pontes com quem pensa diferente — familiares, amigos e colegas que votaram no outro candidato —, evitando o rótulo fácil que transforma divergência política em inimizade pessoal. A amizade social de que falam os documentos da Igreja começa exatamente nesses espaços pequenos e cotidianos.

Uma fé maior do que as urnas

Quarenta e oito horas depois do resultado, o Brasil segue dividido quase pela metade — números que, por si só, já deveriam convidar à humildade de ambos os lados, vencedores e derrotados. Para os católicos, o chamado que resta não é o de decretar vitórias ou derrotas espirituais a partir de uma urna eletrônica, mas o de seguir exercendo, com responsabilidade e caridade, a cidadania que a própria fé exige: orando pelos governantes, vigiando o poder, e recusando-se a fazer de qualquer partido ou presidente o critério último do que é ou não a vontade de Deus.

Fontes e referências

3 comentários em “O Lula ganhou. E agora cristão? A Igreja ensina sobre política após a eleição”

  1. Nós católicos, lutamos por Nossa Senhora Aparecida. Não entendi essa pergunta… “Deus nos abandonou”? O que a fé diz sobre vitória e derrota… vitória é derrotar sim o filho da mentira. E foi por isso que ganhamos.

    Curtir

    1. Valéria, obrigado por comentar. A afirmação é que tenho visto e ouvido de muitos que haviam escolhido o outro candidato. Por isso escrevi este texto. Independente de quem ganhar, nossa misão como cristãos é orar pela nação, seus governantes. Estou vendo muitos indagarem ou questionarem que Deus teria abandonado simplesmente porque o seu desejo pessoal não foi antendido. Isso é triste. Não é o que um cristão tem de fazer. Devemos orar, isso sim!

      Curtir

Deixe um comentário