Em 1501, uma carta do rei Dom Manuel aos reis católicos da Espanha batizou as terras recém-chegadas de “Terra de Santa Cruz”. O nome — que sucedeu a efêmera “Ilha de Vera Cruz” dada por Pedro Álvares Cabral um ano antes — vigorou por quase dois séculos e carregava um projeto: aquele seria, antes de tudo, território cristão, da cruz. Mais de cinco séculos depois, o Brasil é de fato o país com mais católicos do mundo em números absolutos, mas é também, segundo o Censo 2022 do IBGE, um mosaico de evangélicos, espíritas, praticantes de religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos, seguidores de tradições indígenas e um número crescente de pessoas sem religião. Este dossiê olha para como essas comunidades convivem — e para onde essa convivência ainda falha —, além do que a Igreja Católica ensina sobre diálogo inter-religioso e ecumenismo.
De “Terra de Santa Cruz” a mosaico religioso
Até a Proclamação da República, em 1889, o catolicismo foi religião oficial do Estado brasileiro: a Constituição do Império previa o “padroado”, pelo qual a Coroa nomeava bispos e sustentava a Igreja, e outras religiões só eram toleradas em culto doméstico ou sem forma exterior de templo. A separação entre Igreja e Estado só veio com a Constituição republicana de 1891 e foi reafirmada pela Constituição de 1988, que garante a todos a liberdade de crença e de culto e veda ao poder público estabelecer ou subvencionar qualquer religião.

Os números dessa transformação aparecem no Censo 2022, divulgado pelo IBGE em 2025: os católicos caem para 56,7% da população (eram 65% em 2010), o menor percentual da série histórica iniciada em 1872, enquanto os evangélicos sobem para 26,9% (47,4 milhões de pessoas) e os praticantes de Umbanda e Candomblé saltam de 0,3% para cerca de 1% — um crescimento de mais de 240% na década, para perto de 1,8 milhão de pessoas. O catolicismo continua majoritário em todas as grandes regiões, com maior força no Nordeste (63,9%) e no Sul (62,4%), enquanto o Sudeste lidera entre os que se declaram sem religião (10,5%). Para o padre Álvaro Pimentel, pesquisador de Filosofia da Religião na Universidade de Brasília, esse pluralismo “é um fenômeno contemporâneo, muito importante nas sociedades em geral”. Já Romi Bencke, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), chama atenção para um dado que os números escondem: parte de quem pratica religiões de matriz africana ainda se declara católica ou espírita ao censo “por questões de segurança, pela intolerância religiosa”.
Outras terras santas dentro do Brasil
O Candomblé e a Umbanda nasceram da fé que povos africanos escravizados trouxeram ao país e recriaram em solo brasileiro, com a Bahia como um de seus berços e os terreiros funcionando, para essas tradições, como território tão sagrado quanto um templo ou santuário. O Espiritismo kardecista, mais concentrado no Sudeste (2,7% da população da região), também é uma religião de raiz brasileira na forma como se organizou a partir do século 19. A presença judaica remonta ao Brasil colonial: durante a ocupação holandesa de Pernambuco, foi fundada no Recife, por volta de 1636, a sinagoga Kahal Zur Israel, apontada como a primeira das Américas. Hoje a comunidade judaica brasileira soma cerca de 120 mil pessoas, a segunda maior da América Latina, concentrada principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Já a presença muçulmana se consolidou com a imigração de libaneses e sírios a partir do final do século 19, com comunidades e mesquitas importantes em São Paulo e em Foz do Iguaçu (PR); o Censo de 2010 registrou cerca de 35 mil muçulmanos autodeclarados, número que entidades islâmicas consideram subestimado. Há ainda as religiosidades dos povos indígenas, anteriores a todas as demais e ainda vivas em aldeias de todo o país, embora reduzidas a 0,1% da população geral no Censo.
Quando a convivência falha: os números da intolerância
A diversidade não significa, por si só, harmonia. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o canal Disque 100 registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa no Brasil, segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) — a maior concentração recaindo sobre religiões de matriz africana: 228 denúncias envolvendo a Umbanda e 161 o Candomblé, à frente de todos os outros grupos. São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia lideram o número de casos. Uma pesquisa batizada “Respeite Meu Terreiro”, feita em parceria com a Unirio e divulgada em novembro de 2025, ouviu 255 terreiros e constatou que 76% relataram racismo religioso e 80% disseram que integrantes da comunidade foram vítimas diretas de agressões ou discriminação. É em memória desse histórico de violência que o Brasil marca, em 21 de janeiro, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (Lei nº 11.635/2007), data escolhida em homenagem a Mãe Gilda de Ogum, líder de terreiro em Salvador morta em 2000 após uma agressão que associações do setor atribuem à intolerância religiosa.
Mas 2026 também registrou uma onda distinta: em setembro, imagens e estabelecimentos católicos foram alvo de vandalismo em cidades como Fortaleza, Londrina e Salvador — incluindo um ataque incendiário a uma loja de artigos religiosos em Fortaleza, antecedido por um bilhete de ameaça. Segundo o Disque 100, as denúncias envolvendo a fé católica no primeiro semestre de 2026 mais que dobraram em relação ao mesmo período de 2025 (de 15 para 34 casos), embora em volume absoluto ainda fiquem muito atrás das que envolvem o Candomblé e a Umbanda (que também cresceram, de 192 para 270 no mesmo intervalo). A sucessão de ataques levou o ministro do STF Flávio Dino a determinar à Polícia Federal a apuração de uma possível disseminação coordenada de agressões a imagens religiosas católicas pelo país. Para Rudelmar Faria, secretário-geral da Aliança ACT, rede ecumênica presente em mais de 140 países, o mundo vive “um momento global em que a religião é instrumentalizada para excluir” — e, no Brasil, as maiores vítimas da intolerância continuam sendo mulheres, pessoas LGBTI+, povos indígenas e jovens negros de baixa renda. O recado de fundo, repetido por quem apura esses casos, é que não há hierarquia de gravidade entre atacar um terreiro, uma igreja, uma sinagoga ou uma mesquita: todos são crimes contra a liberdade de crença garantida pela Constituição.
O que a Igreja Católica ensina sobre diálogo e unidade
A Igreja Católica distingue dois movimentos que às vezes se confundem no discurso comum. O ecumenismo é o diálogo entre cristãos de diferentes Igrejas e comunidades — católicos, ortodoxos, luteranos, anglicanos, presbiterianos, entre outros —, fundamentado no decreto conciliar Unitatis Redintegratio (1964), que reconhece nos demais batizados uma comunhão real, embora imperfeita, com a Igreja Católica, e convoca à oração, à conversão pessoal e à caridade mútua como caminhos para a unidade plena que Cristo pediu para seus discípulos. No Brasil, esse trabalho tem expressão institucional no Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), fundado em 1982 e do qual a Igreja Católica é uma das integrantes, ao lado de luteranos, anglicanos, presbiterianos e da Aliança de Batistas; juntos promovem desde a Semana de Oração pela Unidade Cristã até ações conjuntas de defesa de direitos humanos. Como resume o próprio Conic, “ecumenismo é caminhar junto na diversidade” — e não a fusão das Igrejas em uma só.
Já o diálogo inter-religioso é o relacionamento da Igreja com religiões não cristãs — judaísmo, islamismo, religiões de matriz africana, espiritismo, tradições orientais e indígenas —, cujo marco é a declaração conciliar Nostra Aetate (1965), que afirma que a Igreja “não rejeita nada do que nestas religiões é verdadeiro e santo”. Em setembro de 2026, três dicastérios vaticanos — Doutrina da Fé, Promoção da Unidade dos Cristãos e Diálogo Inter-religioso — publicaram, com a assinatura do papa Leão XIV, uma nova nota para marcar os 60 anos do documento, intitulada “Um Caminho de Esperança”. O texto reafirma que “a aliança de Deus com o povo judeu é irrevogável”, sem que isso signifique “dois caminhos de salvação” paralelos, já que para a Igreja “Cristo é o único redentor”; relembra que Nostra Aetate nasceu também como resposta ao antissemitismo que culminou na Shoá; e critica manifestações de islamofobia que não distinguem entre fundamentalismo violento e a “vida pacífica de outros fiéis muçulmanos que se integram e contribuem com os países que os acolhem”. A nota insiste que diálogo não é relativismo nem “diluição da identidade religiosa” — pressupõe, ao contrário, uma consciência clara da própria fé —, e pede reciprocidade: a mesma liberdade que a Igreja defende para outras religiões deveria valer para cristãos que são minoria em outros países, inclusive os que hoje sofrem perseguição. Como resumiu o papa Leão XIV, citado pela nota, a vocação cristã é ser “construtores de pontes, não de muros”.
Convivência possível, mas não automática
A cruz erguida em 1500 na praia onde hoje é Porto Seguro não desapareceu, mas deixou de ser o único símbolo religioso que define o território que um dia se chamou “Terra de Santa Cruz”. Os dados mostram um país que reza de muitas formas — e que, apesar da convivência cotidiana entre vizinhos de fés diferentes, ainda falha em proteger igualmente todas elas, sobretudo os terreiros de Candomblé e Umbanda, historicamente os mais atacados, mas também sinagogas, mesquitas, igrejas e templos evangélicos em episódios mais pontuais. A doutrina que a própria Igreja Católica professa sobre ecumenismo e diálogo inter-religioso não pede uniformidade nem indiferença diante das diferenças de fé: pede, antes, aquilo que sintetizou Leão XIV — pontes em vez de muros — como condição para que a liberdade religiosa garantida pela Constituição deixe de ser só letra de lei e se torne, de fato, experiência de convivência.
Fontes e referências:
IBGE — Censo Demográfico 2022, resultados preliminares sobre religião
Correio Braziliense: “A fé brasileira está mais diversa, aponta IBGE”
Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania — dados do Disque 100 sobre intolerância religiosa
Agência Brasil: “Ataques a símbolos religiosos reacendem debate sobre intolerância”
Vatican News: nota conjunta dos dicastérios vaticanos pelos 60 anos de Nostra Aetate (“A Journey of Hope”)
Portal Luterano: histórico dos 40 anos do Conic
Times of Israel: dados sobre a comunidade judaica no Brasil
Câmara dos Deputados: Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (Lei nº 11.635/2007)